Editorial JC: Lições para a vida digital
Tema da rede estadual de ensino em 2026 destaca o valor da crítica e da responsabilidade para a cidadania aplicada ao ambiente virtual
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Olhares fixos nas telas que mudam velozmente os estímulos visuais, crianças e adolescentes consomem os fluxos de informação em um volume inimaginável a gerações anteriores. Eis um dos desafios para os pais, em casa, e os professores, nas escolas, numa espécie de choque geracional que não diz respeito apenas à quantidade dos dados engolidos pelos olhos, a qualquer hora do dia, o dia inteiro.
Mas também ao acesso a conteúdos impróprios à idade, fake news, em redes onde proliferam a desinformação e a hiperexposição, nem sempre fidedigna ao que se passa com quem se expõe. E ainda, no aprendizado além do conhecimento escolar, da vida social, os laços e conexões virtuais apresentam questões éticas para as quais a responsabilidade precisa ser alvo da atenção, dentro e fora das telas – não apenas para crianças e adolescentes, mas inclusive e sobretudo para os adultos.
A rede estadual de ensino em Pernambuco traz o tema “Educação para a Cidadania Digital e Midiática: formando cidadãs e cidadãos críticos e responsáveis” para o ano letivo de 2026. De acordo com a Secretaria de Educação, o que se pretende mostrar é a importância de “uma atuação ética, segura e cidadã no ambiente digital, com foco em debates sobre segurança, navegabilidade responsável e autonomia de adolescentes e jovens”. A temática escolhida como foco de trabalho não é estranha ao cotidiano da juventude, e sua abordagem no ambiente escolar significa uma iniciativa de aproximação com as gerações que nasceram debaixo das telas, de olho arregalado na configuração tecnológica da vida.
A proposta é ampliar o diálogo sobre as redes, o uso de celulares e outros dispositivos, e a inescapável inteligência artificial, cuja disseminação expande a preocupação acerca da ética digital e da montagem de mentiras compartilháveis. A partir do dia 3 de fevereiro, no retorno das aulas, as atividades previstas, “desde torneios e olimpíadas até atividades pedagógicas, terão esse viés de aprofundamento do tema para tentarmos conscientizar nossos professores, gestores e estudantes para a utilização correta da tecnologia dentro do que planejamos para a educação do Estado”, diz o secretário de Educação de Pernambuco, Gílson Monteiro.
Um ano após a entrada em vigor da lei federal de restrição do uso de celulares no ambiente escolar, o Ministério da Educação anunciou, dias atrás, a realização de uma pesquisa, no primeiro semestre, para avaliar os efeitos da nova legislação na aprendizagem e na dinâmica das unidades escolares. Vale recordar que em 2022, nada menos que 80% dos estudantes brasileiros escutados pelo PISA disseram se distrair nas aulas por causa do uso de um celular.
A vida digital, que começa na família e se estende ao ensino, que não pode ignorar a tecnologia para oferecer conhecimento, também requer um equilíbrio na dose de horas dedicadas às telas. A discussão no âmbito do ano letivo na rede pública estadual pernambucana é pertinente, e pode render boas lições – para estudantes e para educadores.