Perdeu, Flávio! Perdeu!
Bom seria se novas ideias iluminassem Lula na composição e na orientação política do seu quarto mandato.................................
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Quando não reconheceu a sua derrota esmagadora nas eleições presidenciais, o senador Flávio Bolsonaro escancarou as suas inclinações autoritárias e mostrou o seu desprezo pelas regras democráticas. Flávio confirmou as suspeitas dos democratas brasileiros de todas as tendências que votaram no presidente Lula da Silva porque temiam que, na presidência, o candidato do PL minasse as bases do sistema democrático brasileiro. Com o pedido de anulação do pleito sem nenhuma sustentação jurídica, o candidato derrotado reedita a farsa do golpe de Estado do seu pai, Jair Bolsonaro, em 2022. Ele fracassará igualmente porque, mesmo fragilizadas e polarizadas, as instituições da República vão garantir a posse do presidente eleito democraticamente.
Flávio Bolsonaro perdeu a eleição e perdeu também a oportunidade de demonstrar alguma civilidade e espírito democrático reconhecendo a vitória de Lula e desejando sucesso ao presidente no seu novo mandato. Se tivesse feito este gesto, poderia emergir como um líder político da direita para além do bolsonarismo que ele representa. Mas, nesse caso, ele não seria um Bolsonaro. O desempenho eleitoral e o comportamento político de Flávio podem levar a um isolamento político do bolsonarismo no terreno da direita brasileira. Apesar da vitória do PL-Partido Liberal no Congresso, é provável que ocorra um distanciamento de parte da direita e do centro democrático que tinham sido capturados pela extrema-direita, em grande parte apenas movidos pela rejeição ao presidente Lula. E novas lideranças podem surgir com a formação de uma oposição de direita livre do sobrenome de triste memória no Brasil.
Com a sua excepcional vitória, Lula se consolida como a maior liderança popular da história do Brasil, eleito para o quarto mandato presidencial em meio a uma enorme mobilização da sociedade. Nestas eleições, ele foi o catalizador político que permitiu deter o avanço da extrema-direita no Brasil, assegurar a democracia no país e conter o cerco de Donald Trump na América do Sul. Lula vai governar com um país fragmentado politicamente e com graves restrições fiscais para cumprir as suas promessas e viabilizar as muitas benesses que ele distribuiu na campanha eleitoral. E, no plano internacional, tudo indica que o governo Trump não suportará que o Brasil seja uma pedra no seu projeto de domínio do subcontinente. Vários governos da América Latina, mesmo os mais conservadores, já reconheceram o resultado das eleições, mas o presidente Donald Trump insinuou que teria havido fraude no processo eleitoral brasileiro.
Para alcançar governabilidade e se preparar para os desafios, Lula vai precisar transformar grande parte dos votos obtidos no segundo turno em efetivo apoio político, dentro e fora do Congresso. Deve começar compreendendo que parcela significativa desses votos reflete a alta rejeição ao bolsonarismo, são de eleitores que apostaram em Lula mesmo não tendo afinidade política com o presidente.
Nos seus discursos no domingo, Lula afirmou que a virada eleitoral foi possível graças ao engajamento das mulheres e dos jovens e idosos que foram às ruas e atenderam aos chamados das redes para garantir os votos necessários à sua vitória. Desconsiderou que entre os eleitores de todas as idades e gêneros estavam milhões de democratas apostando nele para derrotar o bolsonarismo impedindo a volta ao poder da família Bolsonaro.
Em artigo publicado na Folha de São Paulo, o presidente Lula parece reconhecer que a mobilização da sociedade "ultrapassou a atuação de partidos e organizações políticas". E embora tenha utilizado e abusado do "marketing do medo" na campanha, no mesmo artigo Lula afirmou que os seus eleitores esperam do governo mais do que a manutenção dos programas sociais, desejam "novas oportunidades, desenvolvimento econômico e melhorias na qualidade de vida". Bom seria se estas ideias iluminassem Lula na composição e na orientação política do seu quarto mandato.
Sérgio Buarque, economista