Os Deuses do riso
Riam, talvez, da esperança em conseguir que as escandalosas relações, entre Daniel Vorcaro e o ministro Moraes, nem sejam investigadas.
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Lisboa. Estavam, à espera do elevador, alguns ministros do Supremo – Facchin, Gilmar, Zanin, todos rindo. E mais que todos, gargalhando, Alexandre de Moraes. Retratados por Brenno Carvalho, de O Globo.
Na Grécia antiga, são muitos os deuses ligados a uma cena como essa. Mais famosos deles Dionísio, deus dos vinhos e das festas; seu filho Como, espírito dos festejos e dos banquetes; e Momo, deus das sátiras. Além, claro, do deus Gelo, personificação do riso e das alegrias, com santuário em Esparta. Plutarco relata que o legislador Licurgo até lhe dedicou bela estátua.
Antecipando tragédia que o Brasil viveria, tempos depois, era íntimo de figuras sombrias como Tanatos (a morte) e Fobos (o medo). Rostos que, hoje, conhecemos aqui por nomes e sobrenomes.
O ministro Alexandre de Moraes, achando pouco tudo que fez (dentro e fora dos autos), incluiu na investigação que conduz (processo 4.781), há quase 8 anos, o ministro André Mendonça. Com o sonho de decretar sua prisão, provavelmente. Tivesse bom senso, deveria ter renunciado (para não correr o risco de ser preso). Assim protegendo o Tribunal em que trabalha e seus familiares. Como sabe que não vive em um país decente, sonha com o inverso; sair, do lamaçal, como o mais poderoso dos brasileiros.
Não sei se ainda riem tanto agora os tais ministros, depois que o Mendonça esta semana decidiu reagir. E tirou de seus cargos, por tramarem no caso Vorcaro junto a Moraes, dois parceiros do grupo – o Diretor de Inteligência Policial e o próprio Diretor Geral da Polícia Federal. Vejamos como isso acaba, o tempo é senhor da razão.
No andar da carruagem, uma pergunta me ocorre. Afinal riam do quê?, tão augustas e veneráveis figuras.
Riam, talvez, da esperança em conseguir que as escandalosas relações, entre Daniel Vorcaro e o ministro Moraes, nem sejam investigadas.
Riam, talvez, com a certeza de que Vorcaro vai permanecer em silêncio. Mudo. Sabe que o Sistema é forte e, no passado, livrou todos (inclusive condenados e presos) que hoje estão brilhando no poder. Como na Lavajato. Chegará sua vez de escapar, assim acredita, em razão de que jamais fará “Colaboração Premiada”.
Riam, talvez, do fato de que ninguém vai precisar explicar nada: nem o ministro Moraes, nem o ministro Toffoli, afora outros que ainda não apareceram nas gravações. Nem filhos. Nem mulheres. Posto que vem sendo essa uma regra, no Supremo, o do corporativismo mais despudorado, como se viu em todos os últimos escândalos.
Riam, talvez, do acerto entre eles para tirar esse processo das mãos do ministro Mendonça. Na Grande Mídia, o discurso está já bem afinado. Para proteger o Supremo, deveriam sair de cena os dois, Mendonça e Moraes. Passando a relatoria para um ministro amigo, claro!, comprometido com o Sistema.
Riam talvez porque se têm, nossos conhecidos ministros, como semi-deuses castos e puros, donos da verdade, seres perfeitos acima do bem e do mal. E não são, amigo leitor, pode acreditar. Não são.
Riam talvez, por fim, de nossa ingenuidade, em querer ver um país mais limpo. Com mínimos de ética. Onde a esperteza não dê as cartas; e com todos os corruptos, de ambos os lados, pagando pelo que fizeram.
E foi então que, usando palavras de Fernando Pessoa (Ode marítima), “de repente, mais de repente” (quase o mesmo que Vinícius depois escreveria, no Soneto da separação, “de repente, não mais que de repente”), deu-se um clarão. Um “Eureka”, como aquele de Arquimedes (de Siracusa). E tudo ficou claro. Luminosamente claro.
A pergunta está errada, esse o problema. Não é “riam do quê?”, como ela estava sendo feita. Mas “riam de quem?”. E a resposta certa, clara como o sol, eles riem é de nós.
José Paulo Cavalcanti Filho, advogado