Ubi Veritas?
Mas onde está a verdade nesses casos todos?, amigo leitor. A verdade, ora a verdade, quem se preocupa com ela?.....................
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Melhor resposta para a dúvida, no título (onde está a verdade?), talvez fosse frase de Aulo Gélio (Noites Áticas) "veritas temporis filia" (a verdade é filha do tempo). Mas prefiro começar essa conversa lembrando Millor Fernandes que disse (Millor Definitivo) "A verdade não só é muito mais incrível do que a ficção, como é muito mais difícil de inventar''. E talvez pudesse até complementar, "o perigo da meia verdade é você dizer exatamente a metade que é mentira.''
Mas o que tem isso a ver com nosso Brasil de hoje?, eis a questão. E a resposta é tudo, ou quase. Tomemos um caso aleatório, como prova, o tarifaço de Trump contra parte de produtos brasileiros. Ninguém pode estar a favor do americano, até por romper uma tradição de fraternidade que sempre uniu nossos dois países.
O Presidente Lula, sem maiores preocupações, reagiu como candidato. Agradecido ao gringo por assumir o rosto do Inimigo Externo, tão útil nas eleições. Tanto que, logo depois, anunciou com alarde que vai usar a Lei da Reciprocidade. "Pra que? Pra nada", como diria Ascenso Ferreira (Gaúcho) sobre o gaúcho "em louca arrancada".
Só que, aos poucos, notou que os empresários brasileiros exigiam dele algo diferente. Que negociasse, como todos os outros países estão fazendo. Mas como fazer?, sem incomodar sua campanha presidencial.
Foi quando decidiu, junto com seu marqueteiro, levar a questão à Organização Mundial do Comércio - OMC. Em tese, uma boa ideia. Só que há, no caso, um problema. Grande. É que o tribunal, composto de 7 Juízes Ativos, exige em cada caso votação mínima com ao menos 3 deles.
E a OMC, desde 2019, tem 0 (zero) juízes. Não funciona pela simples razão de não poder julgar nada. Aberto está, claro, para coisas sem importância, por exemplo receber requerimentos no protocolo. Reduzindo essa proposta, de ir a OMC, a seu verdadeiro papel de evento com caráter só eleitoral.
Os Estados Unidos deve ter achado muito divertido; tanto que em Resposta Formal, protocolada em Genebra, disse estar "inteiramente à disposição dos diplomatas brasileiros''. Sabe que nada acontecerá e entrou no jogo; se querem brincar, então brinquemos todos.
Resultado, amigo leitor, é que vai dar em nada. Simples assim. Por essa via, pelo menos. E nossos jornais? Fico só num exemplo. Em que importante jornalista brasileiro, num formidável arroubo ufanista, chegou a declarar (FolhaSP) "Resposta aos Estados Unidos, na OMC, é vitória brasileira".
Só uma bazófia. Posto sabem todos, ele e os demais profissionais a seu lado, que nessa querela não há vencedores nem vencidos. Ao menos até quando sejam nomeados novos Juízes. Se é que serão. No Dia de São Nunca, talvez.
Seria, figurativamente, uma Vitória de Pirro - quando não há propriamente vitória nenhuma. Pirro foi um comandante da Grécia Antiga que derrotou o exército romano na Batalha de Ásculo, mas essa é outra história. Fato é que todos os jornais brasileiros conhecem os fatos. E nos espanta só por agirem como se fosse uma proposta séria. Sem perder tempo no lembrar, ao leitor, que por hora não há juízes na OMC.
Talvez aqui se pudesse lembrar uma lenda que vem de 1745, quando modesto moleiro desafiou o Rei Frederico II, da Prússia (atual Alemanha), daí vindo a conhecida frase "Ainda há juízes em Berlim". Em Berlim, sim. Em Genebra, com certeza não.
E assim vai a nave, na conturbada política brasileira de hoje. E não apenas com o caso da OMC. Reduzida a uma montanha de aparências. Mas onde está a verdade nesses casos todos?, amigo leitor. A verdade, ora a verdade, quem se preocupa com ela?.
É pena. O que nos permite encerrar essa conversa com mais uma frase do amigo Millor, "A verdade é aquilo que sobra depois que você esgotou as mentiras".
José Paulo Cavalcanti Filho, advogado