As ilusões perdidas (Parte 1)
Fico imaginando o que diria Foucault ao ver Bolsonaro, um carcerário, mandando ler uma carta sua pelo filho e, claro, usando o seu "lugar de fala"!.
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É muito interessante, ao longo de apenas uma vida de 70 anos, ter-se a oportunidade de observar e viver, nesse átimo de tempo, modificações tão importantes no conceito e na sensibilidade histórica: eu, como historiador, estou vendo os conceitos com os quais fui formado, desaparecerem e outros tomarem seu lugar. Claro que há algo de triste nisso tudo, até porque a História era o "lugar" onde o "tempo" da esperança se realizaria e, mesmo que não estivéssemos mais aqui, tínhamos certeza de que o "futuro" - como lugar e como tempo- continha a realização de nossas utopias que, até então, não considerávamos como "ilusões" e muito menos "perdidas"!
Um rápido exercício de memória digressiva.
Quando eu era pequeno tínhamos que "decorar" datas, fatos, vultos e heróis históricos e suas frases edificantes que repetíamos nas provas: "Se é para o bem do povo e a felicidade geral da Nação..."; "E saio da vida para entrar na História"... O passado tinha, aqui, uma função exemplar e moralizante. Superada essa história "decoreba e positivista" (dizíamos isso com toda convicção, sem nunca ter aberto uma só página de Auguste Comte!) veio o momento "estrutural" em que o marxismo dominava. Era exatamente com aquele passado e aquela tradição que devíamos romper: a ação política no presente portava o germe da transformação social, tudo isso fundado numa concepção "científica" da História que via em cada "formação social" a preparação revolucionária da próxima etapa: a História era feita (ou melhor, NÓS a fazíamos!) de progressos sucessivos da consciência (Hegel) e da liberdade (Marx): "Meu consolo, dizia um amigo, é saber que o mundo marcha para o Socialismo!". Aliás, exatamente porque não conhecíamos Comte, ignorávamos que encontrar as "leis" do desenvolvimento da sociedade e da história era um projeto... Positivista (!), que imaginávamos ter "superado".
Depois vieram os franceses com as "Mentalidades" (Escola dos Anais, 1929) e todo mundo era obrigado a ler Braudel, Bloch, Febvre, Carlo Ginzburg (que acaba de falecer, e sua história do moleiro do Vêneto -Menocchio- que não acreditava na virgindade de Maria. E lascou-se!). Veio a história do medo no Ocidente, da infância moderna, dos brinquedos infantis, do amor materno, da morte, do hábito de tomar banho de mar em Recife, dos cafés parisienses e sua função política, dos costumes à mesa, etc. Nem passado exemplar, nem futuro utópico, mas o prosaico cotidiano onde vivemos a vida vivida. Não demoraria muito e já estaríamos caminhando para um "presentismo" (Hartog) que fez, não do contemporâneo, mas do presente e seus instantes, o valor fundamental expresso no consumo, no individualismo, na ética hedonista, no narcisismo digital...
O chamado pós-estruturalismo (a partir dos anos 60) via a "Realidade" como criação do poder (que também produz "Verdade"), o Poder como uma instância microscópica e não concentrada (no Estado, por exemplo), e toda relação linguística seria, no fundo, uma relação de poder com seus mecanismos de atuação microscópicos, ou "microfísicos", todos constitutivos do EU ("A língua é fascista", dizia Barthes)! Estamos em plena sensibilidade "soixantehuitard" (relativa ao "movimento" de 68). Aliás, Foucault, que estava em Uppsala (Suécia) no momento da eclosão de 68, pegou seu Jaguar e voltou rapidamente para Paris (sim, Foucault tinha um Jaguar! Não sei o que Barthes, que era seu amigo - e que analisou o automóvel como uma das "mitologias" modernas- diria a respeito!). Era "proibido proibir": não se queria "tomar o poder", mas contestar toda forma dele e viver o GOZO LIVRE DE TODA OPRESSÃO! Marcuse exultava e via nos estudantes (um segmento fora das relações econômicas) o novo agente revolucionário da História, mas advertiu para o fato de que toda essa "libertação" poderia ser recuperada pela sociedade individualista de consumo, e não passar de uma "dessublimação repressiva"! Portas abertas para o projeto neoliberal.
Outra consequência foi a desmoralização dos intelectuais. Vistos como embaixadores do UNIVERSAL, professando em nome de uma metafísica (Humanidade, Consciência, História, Razão...) e falando por aqueles que "não tinham voz" (os humilhados e ofendidos), portanto usando de um poder simbólico para dominar, agora valem os "intelectuais regionais": aqueles que convocam segmentos sociais particulares, a quem a palavra deve ser dada: prisioneiros, loucos, alunos, homoafetivos, negros, mulheres... Aliás, fico imaginando o que diria Foucault ao ver Bolsonaro, um carcerário, mandando ler uma carta sua pelo filho e, claro, usando o seu "lugar de fala"!.
Flávio Brayner, professor da UFPE