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Democracia e corrupção

A percepção de impunidade enfraquece a democracia, a administração pública e a legitimidade do sistema político.......................

Por JORGE JATOBÁ Publicado em 23/06/2026 às 0:00 | Atualizado em 23/06/2026 às 10:59

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Há no Brasil atual muitas razões para decepção e desilusão. O cenário político-eleitoral não oferece alternativas viáveis fora da polarização, nos forçando a votar, não para escolher os melhores candidatos, mas para evitar que aqueles que repudiamos assumam o poder. As instituições da República, Executivo, Legislativo e Judiciário, em todos os níveis de Governo estão perdendo credibilidade, confiança e respeito na medida em que a população vê os interesses do país se subordinarem ao de grupos públicos e privados. Crises e desconfianças institucionais se disseminam, comprometendo a harmonia entre os poderes, em prejuízo dos interesses da população.

A economia apresenta lento crescimento com inflação persistente à luz de um descompasso entre uma politica monetária restritiva com juros ainda elevados e uma crônica política fiscal expansionista. Este quadro se agudiza em ano eleitoral, não só pelos gastos do executivo, mas por decisões populistas do legislativo. Entramos em uma armadilha econômica que penaliza a geração de emprego e renda e aumenta o endividamento e a inadimplência de famílias e empresas.

O orçamento público está sendo gradualmente apropriado pelo Legislativo sob a forma de emendas parlamentares sem transparência, eficiência e efetividade. Por sua vez o Judiciário e o Ministério Público, entre outras carreiras de estado, elevam seus rendimentos com benefícios e penduricalhos, em meio a um país com enorme desigualdade de renda.

Neste contexto, o crime organizado cresce e se infiltra na economia, nos governos, no Legislativo e no Judiciário, seduzindo agentes públicos e privados. O crime organizado corrompe e mata, mas a corrupção no Brasil tem outras dimensões e métodos. Crime organizado e corrupção são apenas duas faces do problema de segurança pública que os brasileiros colocam no topo de suas preocupações cotidianas.

O sistema financeiro está testemunhando e tem sido vítima de um dos maiores escândalos de corrupção do mundo. O caso Vorcaro expressa a extensão e profundidade do poder de corromper e da facilidade de ser corrompido, não importando o status, partido político e a ideologia dos personagens envolvidos.

A corrupção no Brasil é estrutural, persistente e concentrada nas conexões entre dinheiro público, poder político e baixa transparência. Surge em licitações, obras públicas, contratos administrativos, emendas parlamentares, compras emergenciais, empresas estatais, fundos públicos e financiamento para partidos e políticas públicas. O problema não é apenas moral, é também econômico e institucional, abrangendo todos os entes federativos. O Brasil está entre os países mais corruptos do mundo. Em 2025, o índice de percepção da corrupção (IPC) situou o Brasil na 107ª posição entre 182 países do mundo A pontuação de 35/100 no IPC 2025 significa que, na visão de especialistas e agentes econômicos, o setor público brasileiro não transmite confiança quanto à integridade, controle e prevenção da corrupção que tem forte ligação com o orçamento público e não se limita ao pagamento direto de propina. Ela assume formas como direcionamento de licitação, superfaturamento, contratação de empresas de fachada, cartelização, nepotismo, tráfico de influência, rachadinhas, compra de apoio político, uso eleitoral da máquina pública, fraudes em convênios e captura de políticas públicas por grupos privados.

Um dos principais efeitos políticos da corrupção é reduzir a confiança nas instituições. A percepção de impunidade enfraquece a democracia, a administração pública e a legitimidade do sistema político. Para os "cidadãos" sem convicção democrática tais fatos estimulam iniciativas autoritárias e apoio a lideres autocráticos com forte sentimento anti-establisment. Nossa história já testemunhou esse fenômeno. Esperamos que que não se repita.

Jorge Jatobá, doutor em Economia, professor Titular da UFPE, ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco, membro do Conselho de Honra do LIDE-PE e do Comitê de Business Affairs da AMCHAM, Sócio da CEPLAN- Consultoria Econômica e Planejamento

 

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