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Destruir não é sinônimo de vencer

.A lógica denominou-se "doutrina mosaico". Cada peça do sistema possuía capacidade para continuar funcionando mesmo que outras fossem destruídas.

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 20/06/2026 às 0:00 | Atualizado em 20/06/2026 às 10:54

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Carl von Clausewitz, pensador militar prussiano, escreveu, há quase dois séculos, uma das obras mais influentes da literatura militar até os dias de hoje: Da Guerra.

Em sua principal proposição, afirmou que a guerra não é um fim em si mesma. Ela constitui um instrumento da política - pelo uso da violência - para fazer prevalecer a vontade de um dos contendores.

Para Clausewitz, a questão mais desafiadora nos conflitos não era definir quem destruiu mais meios pessoais ou materiais do inimigo. A pergunta correta seria: os objetivos políticos das partes foram alcançados?

Compulsei a obra para tentar enquadrar, pela ótica do general prussiano, o recente acordo firmado entre Estados Unidos e Irã, que põe fim ao conflito de mais de cem dias.

Na disputa pelo domínio da narrativa, o presidente Trump apresentou o acordo como uma vitória americana. Nada mais natural. Líderes políticos costumam vender vitórias ainda que imaginárias. Quem respeita os fracos?

Mas Clausewitz olharia além das declarações. Afinal, quais eram os objetivos políticos dos Estados Unidos ao iniciarem a campanha militar?

Derrubar o regime dos aiatolás? Inviabilizar o programa nuclear iraniano? Reduzir o apoio iraniano a organizações armadas que atuam no Oriente Médio?

Ou, ainda, oferecer aos eleitores americanos uma narrativa de sucesso militar sem custos elevados? Demonstrar credibilidade perante aliados históricos? Diminuir a influência da China na região?

Todos, objetivos legítimos. O problema é que não parece simples afirmar que tenham sido plenamente alcançados.

O regime iraniano continua existindo. Suas estruturas de poder permanecem operantes. O programa nuclear segue como objeto de futuras negociações, sem evidências de que venha a se submeter a controle externo.

O acordo anunciado prevê, inicialmente, a reabertura do Estreito de Ormuz e o encerramento das hostilidades. Entretanto, sua leitura revela que diversos temas sensíveis, que estavam na origem do conflito, permanecem em aberto.

Como lição da invasão do Iraque, em 2003, o Irã intuiu que poderia ser a próxima vítima.

Diante desse desafio, desenvolveu e validou uma estratégia distinta. Em vez de apostar na simetria, optou pela resiliência. Em vez de concentrar capacidades, procurou distribuí-las. Em vez de depender de uma ortodoxa cadeia de comando e controle, desenvolveu estruturas capazes de operar de forma independente.

A lógica denominou-se "doutrina mosaico". Cada peça do sistema possuía capacidade para continuar funcionando mesmo que outras fossem destruídas. O objetivo não era derrotar frontalmente o adversário, mas sobreviver ao ataque e preservar a capacidade de continuar lutando.

Sob essa ótica, a permanência do regime já representa um resultado estratégico relevante. Isso não significa afirmar que o Irã venceu a guerra. Tampouco permite classificá-lo como derrotado.

Seu principal objetivo político parece ter sido alcançado: garantir a sobrevivência da "Pérsia" e de seu regime político-religioso diante de uma força militar muito superior.

Nesse ponto, a realidade aproxima-se mais das conclusões de Ivan Arreguín-Toft, em sua obra Como os Fracos Vencem Guerras, do que das expectativas iniciais de muitos observadores internacionais.

Arreguín-Toft demonstra que conflitos assimétricos raramente são decididos apenas pela superioridade material. Frequentemente, vence quem consegue preservar sua vontade política por mais tempo.

Para ele, os fortes precisam alcançar objetivos ambiciosos. Os fracos precisam sobreviver. Foi assim no Vietnã, Somália...

E, quando isso acontece, a vitória militar e a vitória política, embora indissociadas, não refletem a mesma coisa.

Washington proclama vitória. Teerã celebra resistência. Mas, retomemos Clausewitz: quais eram, efetivamente, os objetivos políticos da guerra para ambos os lados? Conferida a resposta, saberemos quem venceu. Até lá, destruir não é sinônimo de vencer.

A propósito, aproveitem os festejos juninos aí da terrinha!

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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