Inteligência Artificial e Emprego
O temor ressurge com a extraordinária mudança tecnológica de base digital ensejada pelo advento da Inteligência Artificial (IA)....................
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O mercado de trabalho está enfrentando mudanças institucionais, culturais e tecnológicas. Distintamente da maioria dos outros mercados de produtos serviços e insumos, onde oferta e demanda são os principais determinantes dos preços, o mercado de trabalho é muito regulado pelo Estado, como é o caso do Brasil. Além disso, o mercado laboral é afetado pelo progresso tecnológico, de forma especial mas não exclusiva pelo de base digital, onde se destaca, desde 2023, a disruptiva emergência da inteligência artificial (IA). Mudanças culturais como a percepção dos trabalhadores em relação aos deveres e condições do trabalho assalariado, especialmente no que diz respeito à extensão da jornada de trabalho, disciplina hierárquica e perspectivas de mobilidade social e profissional, afetam as decisões e escolhas das pessoas com relação à forma e a natureza de sua inserção n atividade econômica.
Com relação à dimensão cultural, no caso brasileiro é crescente o número de trabalhadores formais que pedem demissão dos seus empregos por insatisfação com relação às condições de trabalho e de remuneração. Tentar empreender e trabalhar por conta própria, explicam o crescimento no país dos MEI (microempreendedores individuais) e esclarece, em parte, porque os empresários reclamam das dificuldades de preencherem os postos de trabalho ofertados.
No que diz respeito às instituições, reformas trabalhistas aqui e em outros países buscam reduzir a regulamentação, propiciando mais flexibilidade e menores custos no funcionamento do mercado de trabalho. Essas mudanças, todavia, reduzem a rede de proteção ao trabalho assalariado.
Analisa-se agora o impacto da tecnologia. Nos anos oitenta do século passado, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) temia que o advento da internet e das tecnologias associadas, iriam destruir milhões de empregos, semeando crises nas economias. As previsões falharam porque, com o advento da Internet, milhares de ocupações foram criadas, exigindo, todavia, novas qualificações, talentos e habilidades dos ocupantes. A produtividade cresceu substancialmente com as inovações de base digital, mas não houve desemprego em massa como temiam os especialistas. Para criar conexões em redes, muitos empregos foram gerados.
O temor ressurge com a extraordinária mudança tecnológica de base digital ensejada pelo advento da IA. A revista The Economist, em artigo intitulado Apocalipse do Emprego (The Jobs Apocalypse, 16 de maio de 2026), relata essa forte possibilidade. Embora não haja, ainda, evidências consolidadas de que esta tendência irá se confirmar, essa mudança paradigmática que veio para o bem ou para o mal como a descoberta da fissão nuclear, está preocupando atores econômicos e políticos. Hardware (data centers) e disruptivos softwares de IA, tornam o processo de produção de bens e serviços muito mais intensivo em capital, incorporado em conhecimento técnico,, com a consequente redução da participação dos rendimentos do trabalho na distribuição funcional da renda. Nesse sentido, crescente parcela da renda gerada pela economia, sob a égide da IA, seria apropriada pelo capital, aumentando a desigualdade. Por essa razão, tem surgido propostas para tornar mais progressiva a taxação da renda do capital. Essa taxação ocorreria tanto dentro dos países quanto nos fluxos internacionais de rendimentos uma vez que as grandes empresas envolvidas neste processo se tornaram multibilionárias e se concentram em poucos países como os EUA e China.
Esperamos estar errados como fomos no caso da Internet , mas o desafio é se preparar para o pior em face desse extraordinário avanço da tecnologia digital. Veio para o bem, embora possa servir também ao mal, além de trazer possíveis consequências adversas para o mundo do trabalho.
A Internet criou empregos. A IA pode destruir muitos, dentro e fora do mundo digital.
Jorge Jatobá, doutor em Economia, professor titular da UFPE, ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, membro do Conselho de Honra do LIDE-PE, sócio da CEPLAN- Consultoria Econômica e Planejamento.