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A canarinha volta a campo

A seleção brasileira precisa voltar a representar o imaginário da camisa amarela........................................................

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 30/05/2026 às 0:00 | Atualizado em 30/05/2026 às 10:49

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Faltam pouco mais de dez dias para a Copa do Mundo e um Brasil ufanista volta a se enfeitar de verde e amarelo. É chegada a hora de a camisa da seleção representar novamente apenas o futebol, paixão nacional.

Os avós aqui em Brasília já procuram body da seleção para os gêmeos galeguinho e cabeludinho, enquanto tentam completar os álbuns de figurinhas dos netos mais velhos aí de Recife.

Somos o país com mais títulos mundiais, façanha rara em esporte tão competitivo. Ao mesmo tempo, convivemos há anos com frustrações que revelam uma verdade dura: peso de camisa não ganha campeonato.

O que então é preciso para conquistar uma Copa do Mundo? Talvez alguns "princípios da guerra" ajudem a responder ao desafio.

Tudo começa pela liderança. E liderança não aparece apenas na braçadeira de capitão, na roda de jogadores antes da partida ou na conversa de vestiário. Ela surge na capacidade de controlar os imponderáveis e na disposição de assumir responsabilidades. Sempre me vem à memória a imagem de Didi caminhando calmamente com a bola debaixo do braço após o Brasil sofrer um gol na final de 1958. Aquilo era liderança.

Jogadores experientes estabilizam a equipe nos momentos críticos. Mas precisam agir como efetivos profissionais, e não como "influencers" preocupados em divulgar a marca da chuteira nas redes sociais.

Fora de campo, a comissão técnica deve reforçar a unidade de comando. Se um atleta renomado tiver de ir para o banco, irá para o banco. Cabe ao treinador disciplinar coletivamente a equipe e resistir às pressões impostas pelos interesses financeiros que cercam o futebol moderno.

Outro fator indispensável é a sinergia entre os jogadores. Copa do Mundo não é competição para grupos fragmentados. A história mostra os riscos das divisões internas. Menos "eu" e mais "nós".

O mundo hiperconectado transformou atletas em marcas globais, cercadas por patrocinadores gananciosos, reféns das redes sociais e obcecados por interesses individuais. Para quem possui valores éticos frágeis, esse individualismo cresce mais rápido que o espírito coletivo.

Uma verdadeira equipe não vence competições desse porte com treinador ou atletas pensando prioritariamente em contratos futuros ou projeção de imagem.

Também é ilusão imaginar que a torcida seja mero apêndice. O ambiente emocional pesa. O apoio popular fortalece. A cobrança obriga ajustes.

Além disso, futebol de alto nível exige preparação construída ao longo do tempo. Não basta reunir jogadores talentosos poucas semanas antes do torneio e "partir para o abraço".

As seleções mais organizadas trabalham ciclos completos de treinamento, testes, aperfeiçoamento e consolidação de ideias.

Outro aspecto importante é deter informações sobre os adversários e evitar surpresas. O futebol globalizado eliminou o desconhecimento. Todas as seleções se estudam detalhadamente. Olheiros acompanham equipes em qualquer parte do mundo, identificam fortalezas e debilidades e constroem verdadeiros mapas do adversário.

As últimas Copas deixaram evidente que não existem equipes irrelevantes. Seleções consideradas menores compensam limitações técnicas com organização, disciplina e comprometimento coletivo.

No fundo, o futebol competitivo guarda certa semelhança com a definição clássica de conflito apresentada por Carl von Clausewitz.

Para ele, a guerra é um duelo de vontades. Evidentemente, futebol não é guerra. Ainda assim, a lógica da disputa permanece válida: vence quem suporta melhor a pressão, mantém a concentração por mais tempo e preserva a força coletiva nos momentos decisivos. Vence, então, quem demonstra mais vontade.

A seleção brasileira pode até não conquistar o título. Mas precisa voltar a representar o imaginário da camisa amarela: seriedade, coesão, competitividade e inspiração.

Sem isso, a seleção canarinha continuará sendo apenas lembrança de um passado glorioso que talvez não volte mais.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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