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O consumo e o investimento

Nesta equação – consumo e investimento – falta uma variável: a poupança. Entendida como a renúncia a utilizar a renda gerada pela produção

Por SÉRGIO C. BUARQUE Publicado em 27/05/2026 às 5:00

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Ao longo da história, os economistas dedicaram muita saliva na discussão para identificar a força motriz do crescimento da economia. Em 1803, o economista Jean-Baptiste Say argumentou que a produção de um bem gera renda (salários, lucros, aluguéis e juros) que será utilizada para compra de outros bens e serviços, o que levou à difusão do que passou a ser chamado (indevidamente) de Lei de Say: “a oferta cria sua própria demanda". De forma simplificada, essa abordagem de Say levaria à conclusão de que o motor da economia é a produção ou, o que a antecede e viabiliza, o investimento.

Para John Maynard Keynes, é demanda afetiva - gastos das famílias e do governo e os investimentos - que determina o nível de produção e, portanto, de renda, que vão, efetivamente, elevar a capacidade de produção (ou, numa crise, restaurar o nível de produção, de emprego e de renda). Ele acrescenta que o nível real de produção não depende da atual capacidade de produzir ou do nível das rendas preexistentes, depende das decisões correntes de investir edas expectativas do consumo corrente e futuro. O dinamismo da economia decorreria, em última instância, do investimento que aumenta a capacidade de produzir e que, por seu turno, visa atender um consumo esperado.

Nesta equação – consumo e investimento – falta uma variável: a poupança. Entendida como a renúncia a utilizar a renda gerada pela produção para consumir, a poupança interrompe, por dizer assim, o ciclo imaginado por Say: nem toda a renda gerada é consumida. Entretanto, é esta poupança (renúncia ao consumo presente) que financia o investimento, ampliando a capacidade de produção. Mesmo sendo financiados pela poupança e orientados pela expectativa da demanda, são os investimentos que determinam o dinamismo da economia.

Para fundamentar as políticas sociais, e nem precisava, o presidente Lula Silva costuma inverter a equação considerando que consumo é o ponto de partida para o crescimento econômico. O aumento do consumo da população de baixa renda, por conta dos programas sociais, não tem influência relevante na redução da poupança. Mas, está longe de estimular diretamente o investimento, principalmente quando as políticas governamentais alteram outras variáveis macroeconômicas que desestimulam o investidor, como o desequilíbrio fiscal criando insegurança e levando à elevação da taxa de juros. De modo que, a elevação da demanda sem uma correspondente ampliação dos investimentos para aumento equivalente da oferta, pode provocar inflação que, no final das contas, corrói o poder de compra, vale dizer, achata a demanda.

Lula entende que entregar mais dinheiro na mão da população, através dos diversos programas sociais, aumenta a demanda que estimula as empresas a elevaram a produção. Ao contrário da Lei de Say, segundo a qual a produção gera a demanda, a política econômica de Lula fala de um duvidoso ciclo virtuoso, segundo o qual, a demanda gera a produção. Neste modelo (Lei de Lula?), a renda distribuída é uma parcela da receita pública (renda apropria pelo governo através dos tributos) e não uma contrapartida da produção na forma de salário, lucros, aluguéis e juros.

Num ciclo de recessão econômica, as despesas públicas, especialmente na forma de investimento público, podem irrigar a economia com recursos adicionais que geram emprego e renda e, portanto, realimentam a atividade produtiva. No caso, se trata de tirar uma economia do buraco e não promover o dinamismo sustentado da economia. Não por acaso, ao longo das décadas, a economia brasileira cresceu a um ritmo muito modesto (média de 2,3% ao ano) apesar do grande volume de renda distribuída pelos programas sociais. A principal razão deste lento crescimento econômico está nas baixas taxas de investimento (abaixo de 18% do PIB), enquanto o consumo das famílias flutua chegam a 62% e as despesas públicas cerca de 20% do PIB. O consumo é muito bom, mas sem investimento o Brasil vai continuar patinando.

Sérgio C. Buarque, economista

 

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