Lula acertou o passo?
O encontro de Lula com o presidente Donald Trump em Washigton parece indicar uma reorientação da política externa brasileira..........
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Ao longo do seu terceiro mandato, o presidente Lula da Silva apostou todas as fichas na adesão do Brasil a um dos centros de poder mundial. Mesmo que falasse em política externa independente, Lula atrelou o país ao BRICS e ao chamado Sul Global que, em última instância, gravitam em torno da China. Com um ranço antiamericanista, o governo brasileiro escolheu um lado da disputa geopolítica global, pretendendo quebrar a hegemonia dos Estados Unidos, ajudava a fortalecer a expansão dos chineses no planeta. Com um insistente discurso de defesa do multilateralismo, o governo Lula terminava ajudando a consolidar uma bipolaridade - Estados Unidos e China - com o Brasil alinhado aos chineses.
O encontro de Lula com o presidente Donald Trump em Washigton parece indicar uma reorientação da política externa brasileira com a ampliação das relações com as maiores economias do planeta. Na conferência de imprensa após o encontro, Lula convidou os Estados Unidos a investirem no Brasil, afirmando que a China tinha ampliado sua presença na economia brasileira no espaço deixado pelos norte-americanos: "Eu disse ao presidente Trump de que é importante que os Estados Unidos voltem a ter interesse nas coisas do Brasil".
Até 2009, os Estados Unidos eram o maior parceiro comercial do Brasil e, desde então, a China passou a liderar o comércio brasileiro, representando hoje 30% das exportações brasileiras. Sem alarde e ao longo de diferentes governos brasileiros, a China intensificou os investimentos no Brasil, superando os norte-americanos e quase igualando os Estados Unidos no estoque total de capital investido no Brasil. A consolidação dos negócios com a China é positiva, mas carrega o risco de dependência de um parceiro excessivamente dominante nas nossas exportações e nos investimentos.
Pelo visto, no último ano do mandato, o presidente Lula adquiriu uma certa dose de pragmatismo e realismo nas relações internacionais, tendo percebido afinal que as novas configurações geopolíticas abrem oportunidades para a ampliação e diversificação das parcerias. Trump convidou Lula para encontro em Washington porque descobriu, tardiamente, que o Brasil é uma peça fundamental no tabuleiro econômico do planeta e que os Estados Unidos perderam posição na principal economia da América Latina. Nada indica que o arrogante e errático presidente estadunidense reveja a nova Doutrina Monroe com o cacoete imperialista, mas deverá dar um tratamento diferenciado ao Brasil se quiser recuperar posições. O Brasil se beneficia da disputa dos Estados Unidos com a China, principalmente pela grande concentração de reservas de terras raras (20% do estoque mundial) atualmente dominado pelos chineses. Quando falou das terras raras, Lula declarou que o Brasil não tinha preferências de parceiro, que queira "compartilhar com as empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas, ou quem quiser".
Em certa medida, Trump ajudou também na aceleração das negociações da União Europeia para conclusão do acordo comercial com o MERCOSUL que vinha sendo discutido há cerca de 26 anos, com resistências dos dois lados. Depois da guerra alfandegária do governo Trump e diante do avanço da China no comércio mundial, a União Europeia precisava entrar em cena para ampliar e diversificar as parcerias, aproveitando o entendimento com o bloco de países da América do Sul. Para o Brasil, a implantação do Acordo MERCOSUL-União Europeia cria um terceiro bloco de integração da economia brasileira, escapando da incômoda bipolaridade.
O encontro de Washington não gerou nenhum resultado imediato e os desdobramentos ainda estão indefinidos na medida em que o presidente dos Estados Unidos é imprevisível e não merece a menor confiança. Não importa. O que vale para o Brasil é a indicação de que Lula, finalmente, pode ter acertado o passo na política externa com a disposição a ampliar as parcerias, abandonando orientação ideológica e explorando as oportunidades criadas pela disputa de interesses entre Estados Unidos, China e Europa.
Sérgio C. Buarque, economista