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Desigualdades e oferta de trabalho

A perda do emprego doméstico jogou muitas mulheres para fora do mercado de trabalho. As mulheres saíram mais da força de trabalho......

Por JORGE JATOBÁ Publicado em 12/05/2026 às 0:00 | Atualizado em 12/05/2026 às 15:47

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A demografia da força de trabalho mede a participação de pessoas em idade de trabalhar (14 ) no conjunto da população economicamente ativa (ocupada e procurando trabalho) por um indicador denominado Taxa de Participação na Força de Trabalho (TPFT) que pode ser desagregado por gênero, faixa etária e nível de escolaridade. Este indicador é usado como uma medida da oferta de força de trabalho , pois indica uma fração da população em idade ativa que está ocupada ou ativamente buscando emprego. Analisa-se aqui a evolução da TPFT no Brasil e no Nordeste com destaque para as suas diferenças.

Um ponto de inflexão foi a pandemia com recuos históricos. As mulheres, em comparação com os homens, saíram mais da força de trabalho para cuidar dos filhos por causa do fechamento das escolas e para cuidar também dos idosos. Ademais, a perda do emprego doméstico jogou muitas mulheres para fora do mercado de trabalho. No Nordeste as mulheres chegaram a uma TPFT de 41,0% em 2020

A recuperação foi desigual, entre 2021 e 2024, com os homens sendo mais rápidos. Entre 2021 e 2022, no Nordeste, mulheres subiram 2,6 p.p. em 2 anos, homens 2,8 p.p Em 2023, no Nordeste, homens tinham 66% de participação e as mulheres 44% . No Brasil como um todo os homens participavam com 72,7% e as mulheres com 53,1%.

O Nordeste tem as menores taxas do país especialmente no que diz respeito às mulheres. No terceiro trimestre de 2024, mulheres nordestinas tinham uma TPFT de 44,9% versus 58,1% no Sul e 58,0% no Centro-Oeste

Com relação às diferenças entre as TPFT masculina e feminina (hiato de gênero), observa-se que, no quarto trimestre de 2024, no Nordeste, a diferença foi de 21,5 p.p. homens com 66,4% e mulheres com 44,9%. No Brasil, a diferença foi de 19,6%.

As taxas de participação por idade, a maior foi observada para a faixa etária de 25 a 39 anos que é a idade mais produtiva Mesmo assim, 3 em cada 10 mulheres nordestinas nessa faixa estão fora da força de trabalho. Entre homens, só 1 em cada 10. As diferenças aumentam com a idade: de 8,3 p.p., entre adolescentes, para 23,0 p.p. entre 40-59 anos. Cuidado com filhos, idosos e trabalho doméstico não pago jogam muita mulher para fora do mercado. Na faixa de 60 as taxas despencam: só 15,6% das mulheres nordestinas com 60 anos ou mais estão no mercado contra 38,5% dos homens. Aposentadoria e trabalho de cuidados e assistência para terceiros pesam. Entre os Jovens de 18 a 24, a diferença de 16,2 p.p. já aparece cedo. Muitas param de procurar emprego por maternidade, falta de creche ou para cuidar da casa

Com elação a raça, mulheres pretas/pardas têm a menor TPFT segundo os dados da PNAD contínua relativas ao quarto trimestre de 2024: 43,9% contra 49,2% das brancas. São 5,3 p.p. de diferença só por raça .Os homens também perdem: pretos/pardos 65,8% contra brancos 68,9%. O hiato de gênero é maior entre pretos/pardos: 21,9 p.p. versus 19,7 p.p. entre brancos. A população do NE é 73% preta/parda. Ou seja, o grupo majoritário é o que menos participa.

Escolaridade é o maior divisor: mulher com nível superior completo tem taxa 3 vezes maior que mulher sem instrução: 76,8% contra 25,8%. Entre homens a diferença é menor: 86,9% versus 54,1%.Hiato de gênero diminui com o nível de escolaridade: cai de 28,3 p.p. entre sem instrução para 10,1 p.p. entre quem tem nível superior. A educação protege mais as mulheres, mas diferenças entres os extremos mostra grande desvantagem para as mulheres: mulher preta/parda sem instrução, no Nordeste, tem taxa estimada abaixo de 22%. Homem branco com curso superior passa de 88%. Diferença de 66 p.p . Meninas nordestinas têm desempenho escolar melhor que meninos, mas 56% do potencial produtivo delas não é absorvido pelo mercado. Ou seja, estudam mais e trabalham menos. Nestas dimensões, as desigualdades são também substantivas.

Jorge Jatobá, doutor em Economia, professor titular da UFPE, ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, membro do Conselho de Honra do LIDE-PE, sócio da CEPLAN-Consultoria Econômica e Planejamento

 

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