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Do amor inadimplente

Tenho imensas dificuldades morais e pedagógicas de ver o constrangimento que nossos professores municipais estão passando.................

Por FLÁVIO BRAYNER Publicado em 05/05/2026 às 0:00 | Atualizado em 08/05/2026 às 11:10

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Há duas instituições nessa cidade de Recife com as quais eu sinto ter uma espécie de "amor inadimplente": reconheço perfeita e conscientemente o que elas fizeram por mim e dificilmente poderei ressarci-las, a não ser sob uma forma puramente simbólica. São elas: o Colégio de Aplicação da UFPE e a Secretaria de Educação do Recife, ambas instituições educativas. Quem me conhece sabe o que eu sinto pelo Aplicação, o "MEU" Aplicação - sim, "meu"!: ele é a instituição pública que me fez perder parte da consciência republicana que adquiri ao longo da vida, sabendo separar o "meu" privado do "comum" público: o CAp é "público", mas é "meu" e assim permanecerá enquanto me habitar a matéria perecível de que sou feito, e quero ver alguém tentar tirá-lo de dentro de mim! Nem tentem!

A Secretaria de Educação do Recife, onde exerci o cargo - brevíssimo!- de Secretário Adjunto (2009), e sai expondo publicamente minhas razões, foi o lugar onde aquela minha precária consciência republicana pôde tomar forma institucional e prática. Ali eu vi pessoas como João Francisco de Souza, José Batista, Edla Soares (nossa Anísio Teixeira de saia!), Maria Luiza Aléssio, Marileide Costa, Ednar Carvalho, Esther Calland, Ângela Monteiro... oferecerem à educação dessa cidade, algoque poderia ter introduzido, entre nós, não apenas o batido "direito à uma educação de qualidade socialmente referenciada", mas mostrar que aqui, no Recife, políticas culturais e educativas herdadas dos anos 60 não tinha morrido e que ainda poderíamos fazer dessa cidade uma, desculpem um certo exagero, Atenas Tropical, muito mais democrática e inclusiva do que aquela que Clístenes imaginou!

Não foi possível: a história não é uma epopeia otimista; os homens não são, aparentemente, "desejo de liberdade e felicidade" (a não ser aquela liberdade umbilical e egóica!). Assim, sempre vi os professores da Rede Municipal também como "MEUS", numa flagrante contradição com aquele precário, como disse, espírito republicano: "meus" porque me ensinaram o que era o exercício público da dificílima função de educar em meio popular, paupérrimo e desassistido... e não desistir! "Meus" porque eu também formei muitos deles no Centro de Educação (UFPE); "meus" porque reafirmaram minha íntima convicção de que uma CIDADE não é simplesmente um espaço, um "lugar" onde circulamos, mas uma RELAÇÃO: consigo mesmo, com os outros (a possibilidade de "começar" algo que não existia no Mundo) e com um projeto de vida comum, algo que passa pelo uso da PALAVRA. E adquirir esse DIZER (Paulo Freire) é o que aqueles professores tentam fazer com seus alunos.

Por isso tenho imensas dificuldades morais e pedagógicas de ver o constrangimento que nossos professores municipais estão passando com a questão dos precatórios, das condições de trabalho nas salas de aula, dos salários humilhantes que recebem, da desvalorização de suas carreiras profissionais. Incomoda-me não saber nem sequer o nome do Secretário de Educação do Recife, mas supor que provavelmente nunca teve nenhuma relação com a educação ou com uma formação pedagógica. Assusta-me ver iniciativas privatizantes (Lemann?) e sistemas de aferição de "resultados" que nos alienam de nossa capacidade avaliativa a partir de critério nossos e baseados em nossas realidades sociais e econômicas e, finalmente, entristece-me ver que um excelente Centro de Educação de que dispomos (na UFPE) não forneça mais os quadros que, num passado não muito distante e sempre lembrado por quem o presenciou, os nomes que honraram a educação municipal e fizeram dela um laboratório de autoconsciência cidadã.

Fica, aqui, de qualquer forma, expressa minha gratidão por ter vivido e participado daquela época e por ter recebido, em minha própria formação básica, a sensibilidade moral e pedagógica que me permitiu reconhecer isso.

(Aos professores da Rede Municipal do Recife)

Flávio Brayner é, professor Emérito da UFPE

 

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