Nossa Senhora e a gata
Entre a água que transforma, o óleo que consagra e a luz que impulsiona, há uma lição que ultrapassa o campo religioso.................
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Igreja da Soledade, 11h00 da manhã.
Uma gata branca, de raça não bem definida, subia lentamente os degraus em direção ao altar. Seu caminhar denotava a introspecção e o respeito de quem iria assistir a mais um culto na Casa de Deus.
Deitou-se aos pés de Nossa Senhora da Soledade, enrodilhou-se e pôs-se a escutar, com atenção felina, as explicações do padre sobre os atos a serem praticados durante o batismo dos gêmeos.
O sacerdote nos lembrava o simbolismo da água que banhou as cabeças dos bebês, do óleo que lhes marcou no peito a cruz e da vela, empunhada pelos padrinhos, acesa no círio batismal.
O calor úmido, quase asfixiante, não esvaneceu o ato. Ao contrário, serviu para impregnar a celebração de mais alegria. Para mim, serviu também para relembrar e meditar sobre os simbolismos que sustentam as instituições.
No batismo cristão dos gêmeos, os três elementos sintetizaram, respectivamente, a transformação daqueles meninos e a reafirmação da fé da família e dos amigos que participaram da celebração.
A água que rompe com o passado, o óleo que consagra para uma missão e a vela que impõe o compromisso de viver à luz de valores que não se apagam com as conveniências egoístas, em um mundo tão distópico.
Portanto, aquele ato não se tratou de um gesto decorativo, mas de uma mudança de estado que incorporou aos bebês valores espirituais, além de ética e moral terrenas.
Curiosamente, essa mesma lógica se percebe em outras instituições que, embora distintas em natureza, compartilham processos semelhantes.
Às vésperas do Dia do Exército, no próximo 19 de abril, aponto luzes para a vida militar e seus simbolismos, reafirmando que a profissão das armas exige de seus "sacerdotes" e "seguidores" grandeza e servidão difíceis de serem compreendidas pela média da sociedade.
Transpor o portão das armas pela primeira vez não é apenas um ato administrativo. Representa uma ruptura com a vida anterior. Doravante, a formação imporá ao voluntário disciplina intelectual, esforço físico e adaptação a novos processos.
Há ali uma transição silenciosa, porém constante. O indivíduo deixa de ser um solitário entre muitos e passa a ser mais um no conjunto de muitos. Incorpora-se a um corpo organizado, regido por valores próprios que não admitem relativizações diante do certo e do errado.
Em seguida, vem o juramento.
Ao prestar compromisso à bandeira, o militar não apenas se declara servo da sociedade diante do símbolo maior da Pátria. Tal como na unção simbólica do batismo, não é apenas um cidadão. Vai além, sua cruz é a de um cidadão-soldado.
É alguém investido de uma missão ímpar.
Uma missão que se projeta no cotidiano, pela vigilância permanente sobre seus afazeres e pela disciplina que se mantém mesmo na ausência de supervisão.
Aqui, o paralelo com a vela se torna evidente. Receber a missão, luz que aponta o objetivo, não é uma opção, é dever. Dever que implica expor-se, agir de forma coerente e que, inclusive, pode lhe custar a própria vida.
Instituições que perduram no tempo e que se fazem respeitar, mesmo por quem não professa seus ideais, compreenderam que valores não se escoram apenas por discursos, mas por ações.
Em um viver cada vez mais marcado pela superficialidade, pela tibieza de compromissos e pela relativização dos bons conceitos, onde até cláusulas pétreas legais parecem ser revistas ao sabor de quem deveria protegê-las, essa constatação ganha relevância adicional.
Nesse contexto, as organizações dependem cada vez mais de coesão e confiança, interna e externa, e não podem renunciar a mecanismos que reforcem identidade e compromisso. Tradição e valores. Hierarquia e disciplina. Pedra e carisma.
Como nosso encargo maior é a defesa da soberania, é mister alertar que ter uma sociedade alheia aos desafios contemporâneos que nos cercam é cortejar o abismo da subserviência sem resistência.
Ao mesmo tempo, ter Forças Armadas sem homens e mulheres que compreendam, desde o início, a natureza da pedra e do carisma depaupera o esforço e compromete a capacidade de elas cumprirem a missão.
Entre a água que transforma, o óleo que consagra e a luz que impulsiona, há uma lição que ultrapassa o campo religioso.
Por isso, como nos ritos batismais, os ritos castrenses deixam de ser meros protocolos. Tornam-se instrumentos de poder material do conjunto e de construção do caráter individual.
Durante todo o sermão, a pequena gata permaneceu ali, imóvel, como se também meditasse sobre a profundidade daquele momento.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva