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Otávio Santana do Rêgo Barros: Queremos ser servos dos novos senhores feudais?

Quando esses abnegados se dispunham a tratar do assunto, eram frequentemente silenciados por uma enxurrada de argumentos ideológicos

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 21/03/2026 às 6:00

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Há poucos anos, o tema da Defesa não era tratado senão pelo estamento fardado ou por raríssimos acadêmicos, e mesmo estes em uma abordagem contaminada, que iluminava mais aspectos políticos do que propriamente militares.

Quando esses abnegados se dispunham a tratar do assunto, eram frequentemente silenciados por uma enxurrada de argumentos ideológicos ou de baixa densidade técnica, reflexo de um comportamento incutido por influenciadores junto a uma sociedade há pouco admitida no processo democrático pleno e que navegava nos mares de calmaria do pós-Guerra Fria.

Dito isso, embarcamos na cápsula do tempo e aterrissamos no mundo de hoje. A paz kantiana ficou para trás. As guerras entre nações retornaram ao palco. O multilateralismo foi descartado, quase humilhado, e a multipolaridade se fortaleceu pelo advento de potências antes periféricas.

As lideranças que hoje governam os Estados Unidos passaram a priorizar, de maneira quase exclusiva, seus interesses de hegemonia, confiando em uma supremacia militar que permanece inconteste. Estão certas? Talvez. A dor ensina a gemer.

Reforçando essa autossuficiência, o presidente norte-americano, há poucos dias, afirmou que os Estados Unidos “não precisam de ninguém”, dispensando sólidas alianças tradicionais.

A Europa, órfã, se rearma como há muito não se via, antecipando cenários de conflito de médio e longo prazo diante do expansionismo russo, evidenciado, principalmente, pelas ações na guerra da Ucrânia.
A China constrói ilhas, alargando sua influência sobre o Mar da China Meridional, e se espalha pelo mundo, enquanto aperta o cinto do projeto Belt and Road, oferecendo “azeitona a preço de caviar”.

Conflitos regionais, por vezes históricos, como os que se propagam no Oriente Médio, ganham dimensão global ao extrapolarem os limites geográficos, interagindo com outros atores de forma direta ou tangencial.

Quanto à fugaz sensação de que a América do Sul era uma zona de refrigério e paz e que, portanto, bombas não explodiriam por aqui como explodem acolá, convém repensá-la. Fomos tragados para o olho do furacão pela doutrina Donroe.

A capacidade dos analistas de geopolítica de interpretar e contextualizar os fatos em horizontes temporais mais amplos deteriorou-se. O futuro tornou-se, cada vez mais, o presente.

A posse de armas nucleares voltou ao radar de diversos países que, no passado, optaram por não as desenvolver. Primeiro por convicções filosóficas, depois pelo alinhamento bipolar que os eximia de enfrentar o desafio de pesquisar, desenvolver e construir o seu próprio artefato atômico.

Não estar alinhado não significa não estar envolvido. Ao caminhar sobre o abismo das vontades dos mais poderosos, precisaremos nos proteger da subserviência, ancorando nossa segurança no “mosquetão da dissuasão”.

É alvissareiro perceber que, nos últimos dias, vemos a “Terra de Santa Cruz” despertar de um sono letárgico, preocupada em proteger sua gente, seus interesses, suas riquezas e suas tradições.

Essa postura se traduz na disposição de pensar Segurança e Defesa com maturidade. Doravante, essa discussão tende a ganhar espaço e será, cada vez mais, considerada no exercício do voto.

Reiteradamente, o ministro da Defesa do Brasil, assessorado pelos comandantes de Força, chama a atenção para as recorrentes limitações orçamentárias das Forças Armadas. Instiga a classe política a abandonar o imobilismo paroquial para os temas de Estado e a tratar, com a responsabilidade devida, as questões militares.

Infelizmente, ainda prospera, em certos círculos de pouca luz, revelando um “pensamento estratégico esclerosado” (Coutau-Bégarie), a tese equivocada de que é preciso repensar o papel das Forças Armadas, de que investir em Defesa não é prioritário e de que demandas sociais deveriam absorver parte dos recursos destinados ao Ministério da Defesa.

É mister reconhecer que as necessidades básicas, na escala de Maslow, merecem total prioridade.
Contudo, se o ambiente em que se trava a batalha pela paz e pelo bem-estar social estiver instável internamente, corrompido em seus valores, dividido ideologicamente ou, pior, sob influência direta de atores externos, qualquer discussão será tão dolorosa quanto estéril. Disso, antes que nada, devemos fugir.

Nesse mundo em que as regras de convivência entre nações se fragilizam e a lógica do poder volta a prevalecer, negligenciar a Defesa é aceitar, passivamente, a condição de servos dos novos senhores feudais do século XXI.

Portanto, pensar Defesa não é luxo. É carta de alforria para o nosso país.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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