Adeildo Nunes: A casa cheia de graça
O livro "A vida cheia de graça do cantador de viola" retrata passagens inéditas dos menestréis da poesia popular..................
Clique aqui e escute a matéria
Os poetas e escritores Ésio Rafael, Marcos Passos e Zelito Nunes, acabam de oferecer aos admiradores da poesia popular, a obra poética “A vida cheia de graça do cantador de viola”, prefaciado pelo também poeta e compositor Maciel Melo. A orelha do livro veio entrelaçada de “causos” soberbamente contados por Santana, “o cantador”.
Ésio agarrou-se com a poesia popular desde os seus tempos de menino, na sua amada Sertânia, que significa “cidade sertaneja” e que se encontra encravada no sertão do Moxotó pernambucano, onde Pinto do Monteiro – um dos maiores violeiros de todos os tempos – terminou os seus dias de vida.
Marcos Passos nasceu em São José do Egito, a “capital pernambucana da poesia”, título outorgado pela Assembleia Legislativa de Pernambuco, considerando a sua importância histórica na preservação e na difusão da poesia popular, ao formar uma notável geração de poetas repentistas de ontem, hoje e do amanhã. Foi nesse celeiro de poetas que Marcos deu os seus primeiros Passos, ora declamando poemas, ora exaltando a sua terra e os cantadores de viola do passado e do presente.
Zelito Nunes, escritor, poeta, cordelista e advogado, nasceu em Monteiro, Paraíba, mas foi em Recife que ele deslanchou para o mundo dos livros, oportunizando aos iniciantes da poesia popular, a publicação de inúmeras obras literárias, que até hoje fazem parte do acervo bibliográfico dos admiradores da poesia. Foi Zelito quem pela primeira vez fez publicar os sonetos e versos de João Batista de Siqueira, o Cancão, um dos maiores poetas de todos os tempos, que por obra do destino também nasceu em São José do Egito-PE.
O livro “A vida cheia de graça do cantador de viola”, retrata passagens inéditas dos menestréis da poesia popular, no mais das vezes versejadas ao “pé da parede”, outras tantas decifradas em motes criados nas noites enluaradas que somente o sertão conhece. Em verdade, a obra poética relata os variados momentos vividos no Cariri, no Moxotó e no Pajeú, pela inspiração dos cantadores de viola, em versos marcantes e cheios de lampejos rimados.
Certa parte do livro é dedicado a Louro Branco, que certa vez, em Iguatu-CE, cantando com Louro Guedes, no “pé de parede”, Guedes terminou um verso dizendo: “Louro Branco e Louro Guedes, parecem até no andar”. Louro Branco fulminou: “Meu companheiro, apesar/Do rapaz também ser gente/Nós somos iguais no nome/Mas não somos no repente/Tatu parece com peba/Mas o gosto é diferente.
Tem mais: certo cantador, referindo-se à voz rouca de Lourival Batista, findou um verso dizendo que ele não tinha “peito”. Lourival responde: Esse negócio de peito/Coisa que não me embaraça/Mais peito do que você/Tem uma porca de raça/Tem duas fileiras grandes/E de uma porca não passa.
A obra literária de Ésio, Marcos e Zelito, por fim, reflete um conjunto de versos improvisados pelos nossos violeiros, vates originários da Serra do Teixeira-PB, que desabrocham ao longo dos séculos, expelindo a imensidão da poesia popular, como só eles sabem fazer.
Adeildo Nunes, juiz de Direito aposentado, advogado criminalista no escritório Frutuoso Advocacia, membro do Instituto Brasileiro de Execução Penal (IBEP)