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Como é explicada a convicção

Uma evidência ou um fato são suficientes para uma convicção? O interesse de saber certo desafia a quietude da mente..................

Por JONES FIGUEIRÊDO ALVES Publicado em 02/03/2026 às 0:00 | Atualizado em 02/03/2026 às 9:42

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A convicção pode ser explicada como uma crença profunda e firme que uma pessoa tem sobre algo, seja uma ideia, um valor, ou uma verdade. Ela é mais do que uma simples opinião: é algo que a pessoa acredita de forma segura, mesmo diante de dúvidas ou pressões externas.

A convicção nasce de uma certeza interior, muitas vezes construída ao longo do tempo com base em experiências, estudos ou reflexões. Quem tem uma convicção age de acordo com ela. Isso influencia decisões, relacionamentos e até a forma de enfrentar desafios.

Convicções geralmente estão ligadas a valores e princípios. Por isso, afetar com a convicção de alguém é quase como afetar com a identidade dessa pessoa. Pessoas convictas agem com mais decisão. A convicção impulsiona comportamentos, atitudes e escolhas.

A convicção pode nascer da razão (baseada em argumentos, lógica, evidências) ou da emoção (experiências pessoais, fé, sentimentos intensos). Muitas vezes, é uma combinação das duas. Convicções são estáveis, não mudam facilmente. A pessoa continua acreditando mesmo diante de dúvidas, críticas ou dificuldades. Isso diferencia convicção de mera opinião. Esse tema convoca, a propósito, o chamado "produto da dúvida", diante da técnica deliberada da desinformação, fomentada por aqueles que tentam formar opiniões a partir da distorção de fatos e influir convicções.

Recente obra publicada," Mercadores da Dúvida" ("Merchants of doubt"), de Naomi Oreskes e Erik M. Conway (Quina Editora, 2025), tratou, com maestria, da fabricação planejada e sistemática da dúvida, cujas reiterações culminaram por enfraquecer a confiança na ciência, sobrevindo descrenças. No pano de fundo, os interesses políticos do negacionismo e a dimensão dos seus impactos.

Pois bem. Perante diversos vieses neurocognitivos tenhamos, de logo, a convicção como uma "redução de incerteza" A neurociência cognitiva trabalha com a ideia de que o cérebro é uma máquina preditiva, ela formula hipóteses sobre o mundo e testa essas hipóteses contra a experiência. Em resumo, ajusta ou reforça crenças. Daí, a convicção surge quando o modelo interno do mundo é percebido como estável e resulta pouca "surpresa" ou erro preditivo.

Em termos técnicos, a convicção é um estado de alta confiança subjetiva em uma representação mental. Convicções morais, religiosas ou políticas ativam fortemente redes emocionais. Estudos mostram que, diante de crenças centrais, áreas associadas à identidade e valor pessoal entram em atividade e o cérebro reage como se estivesse defendendo o "self". Isso explica por que convicções profundas são resistentes à evidência contrária.

A neurociência também demonstra uma tendência ao viés de confirmação. Há um reforço dopaminérgico quando uma crença é confirmada. E mais: uma

resistência neural à dissonância cognitiva. Ou seja: convicção não é apenas razão, é também estabilidade emocional e identidade.

Em diálogo com a filosofia, recordando René Descartes., convicção seria clareza e distinção racional. O matemático francês em sua obra "Discurso do Método", constituiu um preceito metodológico segundo o qual se considera como verdadeiro o que for evidente. A recomendação cartesiana é muito atual quando não devamos tomar por verdade absoluta, o que, de fato, não é.

Para David Hume, crença é mais um sentimento do que uma dedução lógica. A neurociência aproxima-se de Hume: a convicção é um estado afetivo-cognitivo integrado. Em metacognição, convicção não é apenas acreditar, é acreditar que se acredita com razão. Tratada a convicção como uma virtude intelectual, afastado o terreno puramente neurobiológico, ingressamos na epistemologia das virtudes, onde o problema não é apenas como o cérebro produz certeza, mas quando essa certeza é moral e racionalmente legítima.

Para Sócrates, a convicção resulta de uma autocritica radical, a desconstituir certezas aparentes e revelar contradições. A verdadeira firmeza nasce depois da purificação do erro. Platão foi decisivo, na sua distinção do "doxa" (opinião) e "episteme" (conhecimento verdadeiro). A convicção pode ser meramente opinativa ("doxa forte") ou racionalmente fundamentada (episteme). A alegoria da caverna mostra que muitos têm convicções firmes sobre sombras. Virtude intelectual é sair da caverna. Enquanto Aristóteles sustenta que a convicção intelectual exige hábito racional. Há uma certeza cientifica (necessária) e uma certeza prática (probalística). Nessa diferença de certezas, surge uma distinção essencial para o Direito.

Dentro da visão aristotélica, as virtudes intelectuais são hábitos da razão: (i) Episteme (ciência): (ii) Sophia (sabedoria) e (iii) Phronesis (prudência). Importa dizer que a convicção virtuosa é firmeza baseada em razão bem formada. A virtude está no meio-termo, quando a deficiência é dúvida permanente, o excesso é o dogmatismo e o justo meio é o da firmeza prudente. A seu turno, os estoicos, como Epitecto e Sêneca, defenderam a convicção como assentimento racional, antecipando a ideia moderna de autocontrole cognitivo. Convicção virtuosa como o domínio das paixões somado à razão firme.

Na tradição escolástica, certeza e prudência combinam, afirmando São Tomás de Aquino que a certeza é a perfeição do intelecto, mas a prudência regula a aplicação prática. Em seu enunciado, importa uma distinção importante, a certeza objetiva constitui adequação à realidade e a certeza subjetiva é o estado psicológico. A virtude intelectual exige harmonia entre ambas. A convicção virtuosa exige, pois, a evidencia suficiente, a retidão da vontade e uma abertura à verdade.

Há uma leitura fascinante sobre o tema na obra do neurologista Robert A, Burton: "Sobre ter certeza. Como a neurociência explica a convicção." (Ed. Blucher, 2017). Como pensamos sobre o que sabemos, no sentimento de certeza do que sabemos como produto seguro da razão.

Afinal, uma evidencia ou um fato são suficientes para uma convicção? O interesse de saber certo desafia a quietude da mente.

Jones Figueirêdo Alves, desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista

 

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