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Bola Sete

Aquele silêncio era uma forma solene de se despedir de amigos aos quais não precisava pedir licença para sentar-se à mesa e beber.

Por ARTHUR CARVALHO Publicado em 25/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 25/02/2026 às 7:18

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Nunca mais vou esquecer aquela cena. Era domingo, ao cair da tarde, eu estava tomando cerveja com uma amiga, no bar de Zito, em mesa fincada na areia da praia de Pau Amarelo, a frente do forte, quando vejo a figura de Mano Teodósio andando, solitário, de calção, à beira mar, descalço, sem camisa, chutando as marolas.

Velho companheiro de boemia, dos bares do cais do porto, dos restaurantes e cabarés da Zona, fazia tempo que não o via e me espantei com sua magreza, que sobressaia com a altura de 1 metro e 80, uma magreza esquisita, a pele tostada pelo sol, o rosto inchado, despenteado, parecia ter acordado naquele instante. À medida que subia a pequena rampa em nossa direção, Mano era o retrato da solidão. Mano, de tantas mulheres, que percorreu quase todo o mundo, em busca de asilo e abrigo, pregando o Socialismo.

Ele sentou-se à nossa mesa, calado, pediu um copo ao garçom Diogo, serviu-se de cerveja, caprichando na espuma do colarinho e permaneceu mudo. Aquele silêncio era uma forma solene de se despedir de amigos aos quais não precisava pedir licença para sentar-se à mesa e beber. Num gesto de despedida de quem sabia estar com dias contados e hora marcada, sem precisar falar nisso.

Minha filha Maria Antônia, 10 anos, que ele chamava carinhosamente "Mamá" e tomava refrigerante conosco estranhando o primeiro gole de Mano, o advertiu: "Ô Mano, o médico não lhe proibiu de beber?". E Mano, forçando um risinho de canto de boca, exibindo as gengivas sempre inflamadas, sem dentes, arrancados à força, de alicate, às caladas da noite, antes de fugir do Brasil num navio cargueiro, ancorado nas docas do Marco Zero e se exiliar na União Soviética, desabafou: "Mamá não se preocupe, eu já tô pela bola sete!".

Duas semanas depois, o caquético e envelhecido Mano Teodósio ingressou deprimido na urgência do Hospital da Restauração e o cardiologista de plantão, que o conhecia de noitadas alegres, lamentou: "Mano, vamos lhe internar na UTI". E Mano: "Mauni, UTI é f!...". Tinha 49 anos e foram suas últimas palavras.

P.S. Excelente, "Boa noite, Maria e outros contos", pela Bagaço, recente livro escrito pelo imortal e acadêmico Admaldo Matos.

Arthur Carvalho, da  Federação Nacional dos Jornalista (Fenaj)

 

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