O risco real é ignorar a ciência
O verdadeiro perigo, muitas vezes, não está no remédio, mas no medo que nos impede de usá-lo .........................................................
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Há remédios que salvam vidas. E há medos que, silenciosamente, as encurtam. Poucas drogas na história da medicina foram tão estudadas quanto as estatinas. Ainda assim, poucas carregam um paradoxo tão curioso: quanto mais evidências científicas se acumulam a favor de sua segurança e eficácia, mais persistem desconfianças, boatos e receios em torno do seu uso. É como se a ciência falasse alto, mas o medo insistisse em sussurrar — e, não raro, em gritar. Desde os anos 1990, quando os primeiros grandes estudos demonstraram, de forma inequívoca, que reduzir o colesterol salva vidas, as estatinas passaram a ocupar lugar central na prevenção do infarto do miocárdio e do acidente vascular cerebral (AVC ou derrame). Esperava-se que, diante de dados robustos, as dúvidas fossem dissipadas. Não foi o que ocorreu. Ao contrário: surgiram manchetes alarmistas, relatos isolados elevados à condição de regra e uma longa lista de efeitos colaterais que passaram a habitar o imaginário coletivo.
O resultado é conhecido por qualquer médico que atenda no consultório: pacientes que interrompem o tratamento por medo; outros que jamais iniciam a medicação; alguns que atribuem ao comprimido sintomas que sempre tiveram, mas só agora ganharam um culpado. A isso, a ciência deu nome: efeito nocebo. Quando a expectativa do dano é tão forte que o corpo passa a senti-lo, mesmo sem relação causal comprovada.
É nesse cenário que um estudo recentemente publicado no periódico The Lancet, com editorial (DOI: 10.1016/S0140-6736(25)02013-6 ) do conceituado cardiologista brasileiro, Prof. Dr. Raul D Santos, lança luz sobre uma questão essencial: até que ponto os riscos atribuídos às estatinas são reais — e até que ponto são fruto de exageros, vieses ou interpretações equivocadas? A resposta, construída com rigor metodológico exemplar, é ao mesmo tempo simples e reveladora.mAo analisar dados individuais de mais de 150 mil participantes em ensaios clínicos randomizados, duplo-cego — o mais alto padrão da pesquisa médica — os autores constataram que, entre dezenas de eventos adversos frequentemente listados nas bulas, apenas quatro apresentaram associação consistente com o uso das estatinas. E mesmo esses, como discretas alterações laboratoriais hepáticas ou edema leve, mostraram impacto clínico mínimo, sem relevância prática para a maioria dos pacientes
Traduzindo para o cotidiano: grande parte dos medos que afastam pacientes das estatinas não encontra respaldo sólido na melhor evidência científica disponível. E mais: as próprias listas extensas de efeitos colaterais, impressas em letras miúdas nas embalagens, podem estar contribuindo para o problema, ao alimentar insegurança e reduzir a adesão ao tratamento. Há aqui uma ironia quase trágica. Ao tentar proteger, exageramos no alerta. Ao listar riscos improváveis como se fossem frequentes, acabamos produzindo um efeito adverso real: mais infartos, mais AVCs, mais mortes evitáveis. O dano não vem do remédio, mas da sua ausência. Isso não significa, é claro, negar que estatinas tenham efeitos colaterais. Nenhuma intervenção médica é isenta de riscos. O que a ciência nos convida a fazer é hierarquizar esses riscos, contextualizá-los e compará-los com os benefícios — que são imensos. Reduzir colesterol não é uma obsessão estética dos números; é uma estratégia comprovada para prolongar a vida com qualidade.
Outro aspecto relevante do estudo é a serenidade com que ele trata a medicina baseada em evidências. Ao excluir estudos observacionais enviesados e focar apenas em ensaios cegos, os autores conseguem separar o que é causal do que é coincidência. Afinal, pessoas que usam estatinas, em geral, já carregam mais doenças, mais idade e mais riscos. Atribuir tudo ao comprimido é um erro estatístico — e humano. Vivemos tempos curiosos, em que a opinião muitas vezes se sobrepõe ao dado, e a experiência individual parece valer mais do que o conhecimento coletivo acumulado. No campo da saúde, esse fenômeno cobra um preço alto. A ciência não é infalível, mas é, de longe, o melhor instrumento que temos para decidir.
Rever rótulos, ajustar bulas, comunicar riscos de forma honesta e proporcional talvez seja um dos grandes desafios da saúde pública contemporânea. Não se trata de esconder informações, mas de apresentá-las com responsabilidade. Informar não é assustar. Alertar não é desestimular. Cuidar também passa pela forma como se comunica.
No fim das contas, a pergunta que fica não é apenas sobre estatinas. É sobre nossa relação com a ciência, com o medo e com as escolhas que fazemos diariamente. Quantas vezes deixamos de aceitar um benefício comprovado por receio de um risco remoto? Quantas vidas se perdem não por falta de conhecimento, mas por excesso de desinformação? O estudo do The Lancet não é apenas uma defesa das estatinas. É um convite à racionalidade. Um lembrete de que, na medicina — como na vida — o verdadeiro perigo, muitas vezes, não está no remédio, mas no medo que nos impede de usá-lo.
Antônio Carlos Sobral Sousa, professor titular da UFS, membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação