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Entre o Welfare State e a Espada

Antes de tudo, vai meu alerta. A paz, como a idealizamos, navega em águas turbulentas de um mundo distópico e está se afogando.........

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 21/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 23/02/2026 às 9:07

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Acabou o carnaval. Finalmente o ano começou. As cinzas desenhadas em nossas testas na missa católica da última quarta-feira indicam a necessidade de enveredar por um período de reflexão profunda, não apenas do ponto de vista religioso, mas também cívico.

Na semana passada, instiguei candidatos aos cargos executivos e legislativos em nível nacional a pensarem Defesa como estadistas, não como políticos desencontrados da realidade da comunidade a quem devem servir.

Tanto quanto instiguei, fui instigado por leitores a dar minha opinião sobre as questões. Hoje, vou me deter apenas em dois temas: orçamento e diplomacia militar.

Antes de tudo, vai meu alerta. A paz, como a idealizamos, navega em águas turbulentas de um mundo distópico e está se afogando. Seremos empregados militarmente em horizonte temporal alcançável por nossa geração.

Comecemos, então, pelo orçamento destinado à Defesa.

Sou adepto de que o Brasil caminhe gradualmente para 2% do PIB em Defesa (atualmente cerca de 1,1%), aliás, como recomendam nações do Velho Continente que agora, após longo período de berço esplêndido, sofrem o peso da guerra da Ucrânia em suas fronteiras e a falta de apoio de seu parceiro principal, os Estados Unidos da América.

Como referência comparativa, dentre as 20 maiores economias do planeta, o Brasil ocupa, proporcionalmente, apenas o 18º lugar em orçamento para Defesa.

Todavia, é impossível não reconhecer que aqui no Brasil há desafios sociais quase intransponíveis que impedem, de pronto, uma mudança de prioridade nas destinações orçamentárias.

Faltam-nos um sistema educacional mais eficiente, uma divisão de renda mais justa e acesso a sistemas de saúde mais equânimes, só para falar de temas que agem diretamente no corpo e na alma do cidadão.

Diante do dilema vivido pelo condottiere na divisão da riqueza gerada pelo Estado, fica a pergunta: como conquistarmos o welfare state (Estado do bem-estar social) se não nos cercamos de proteção contra antagonistas cada dia mais audaciosos e antagonismos cada vez mais frequentes?

Hoje, o Ministério da Defesa opera com recursos instáveis, frequentemente contingenciados e quase sempre irrisórios para o fim a que se destinam.

O baixo orçamento significa, na prática, comprometer a prontidão operacional, atrasar projetos estratégicos, adiar contratos, postergar a manutenção de aeronaves, navios e blindados.

Nesse processo, nós, militares, precisamos reforçar nossa comunicação estratégica sobre a destinação dos recursos que recebemos.

É evidente que o cidadão, para aceitar o custo social das transferências orçamentárias e possíveis perdas pessoais, precisa saber o que está sendo entregue.

E mais, é imperativo que ele se incorpore à análise e à definição de metas a serem alcançadas pelas Forças Armadas, assegurando que o "sofrimento social" se justifique no futuro.

Quando essa sociedade souber de que maneira estamos atuando na vigilância de nossas fronteiras, como operamos na defesa do Atlântico Sul, como o perímetro imaterial do campo de batalha cibernético está sendo protegido e, principalmente, a importância dessas servidões, ela se sentirá tão soldado quanto nós soldados.

Passemos à diplomacia militar.

Um país com nossas características fisiográficas, econômicas e psicossociais precisa caminhar com as próprias pernas. Não pode defender, como diplomacia militar, nem o alinhamento automático nem a neutralidade passiva.

Necessita, sim, encontrar seu caminho natural entre as grandes potências, afastando-se e aproximando-se de blocos geopolíticos conforme seus interesses.

Se há vantagens em adquirir ou mesmo produzir, em consórcio com países do bloco ocidental, caças e blindados de alta performance, por que não?

Se há vantagens em obter tecnologias na área cibernética, em IA e guerra eletrônica, estabelecendo parcerias com empresas do Oriente, por que não?

Se interagir com militares de diversos países em cursos, treinamentos conjuntos ou operações reais servir para construir laços de confiança e canais de diálogo, por que não?

A Conferência de Segurança de Munique, ocorrida na semana passada, mostrou que a velha ordem mundial está com demência senil avançada, enquanto a nova, ainda está nos cueiros (vejam os discursos de Rubio, Merz e Wang Yi).

"Manda quem pode, obedece quem tem juízo" passa a ser o modus vivendi das grandes potências quando se sentem invadidas em seus interesses.

A autonomia decisória exige, portanto, capacidade militar endógena de ação e reação. É nessa hora que as cortinas se abrem e o estadista entra no palco para atuar na cena principal.

Use o método, candidato. Com ele, você adquirirá consciência situacional política e estratégica, e demostrará preparo.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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