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Brincar Carnaval

Num curto intervalo de tempo cultural, o mundo era colocado de cabeça pra baixo, permitindo, ao mesmo tempo uma espécie de "catarse".....

Por FLÁVIO BRAYNER Publicado em 10/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 10/02/2026 às 10:16

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Alguém já disse que ninguém brinca mais Carnaval: vai assistir aos show's deste ou daquele cantor de sucesso, lamentando, tanto quanto eu, uma mudança cultural em nossa mais característica festa popular.

O Carnaval era (!) "o ritual da inversão", se o entendermos da mesma forma que Bakthin, um autor russo que falou da cultura popular na transição entre o feudalismo e a idade moderna: isto significava que nós dispúnhamos de um meio de fuga, de riso, de intervalo que nos suspendia da vida ordinária, permitindo que os valores dominantes numa sociedade hierárquica e sem possibilidade de mudança social, fossem modificados temporariamente: o homem virava mulher, o rico virava pobre, o simples camponês virava Rei (nosso Rei Momo, escolhido pela sua gordura - e não pela dinastia ou Graça- é uma herança desta tradição).

Num curto intervalo de tempo cultural, o mundo era colocado de cabeça pra baixo, permitindo, ao mesmo tempo uma espécie de "catarse", quer dizer, uma válvula de escape que fazia com que pudéssemos expressar nossas angústias e depois... tudo voltasse ao normal: a velha "quarta feira ingrata que chega tão depressa só pra contrariar"!

Ora, o Carnaval visto por esta ótica bakhtiniana, sugere que todos nós precisamos fugir da vida ordinária, deste dia-a-dia que consome nossas energias em vista da sobrevivência ou das necessidades de um consumo artificialmente criado. Mas, quando a festa deixa de ser uma expressão espontânea da temporária revolta contra o cotidiano (que Ascenço definiu como o tempo em que os homens deixam as mulheres e as mulheres os homens!) para aceitar que a "programação carnavalesca" domine a improvisação e a espontaneidade, é porque eu aceitei, sem saber, que minha vida não dispõe mais daquele rápido "intervalo" que permitia que a facticidade diária tivesse um contraponto além dela: no fundo, é como se a possibilidade de sonhar com um mundo diferente do nosso fosse anulada.

Alguém chamou isto de "unidimensionalidade", ou de sociedade unidimensional (Marcuse), ou seja, o sonho e a utopia que todo carnaval comporta teria sido definitivamente absorvido pelas estruturas do mercado, anulando a ideia de espontaneidade e improvisação. Um carnaval administrado!

Penso que estamos todos condenados a não mais "brincar carnaval", mas a aceitar que a Administração governe o intervalo de tempo de que dispúnhamos para viver a vida como espectadores e não como gozo e brincadeira!

Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE

 

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