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Adriano Batista Dias e Tarcisio Patricio de Araujo: Ecos da COP 30

Há quem pense que conheceu a Amazônia, por ter estado presente na COP30. Aí reside um engano chamado ledo, como teria dito o saudoso Ivan Lessa

Por ADRIANO BATISTA DIAS E TARCISIO PATRÍCIO DE ARAÚJO Publicado em 31/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 31/01/2026 às 11:11

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O que quer que se defina como "ecos da COP30" - no seio das repercussões pós-evento - tem como baliza a oposição entre a importância da floresta tropical amazônica e efeitos do Aquecimento Global. Amazônia como simbolismo do tacape que enfrenta o desequilíbrio climático - objeto de atenção do Encontro em Belém, esta grande metrópole e porta de entrada da imensidão amazônica.

Há quem pense que conheceu a Amazônia, por ter estado presente na COP30. Aí reside um engano chamado ledo, como teria dito - salvo engano - o saudoso Ivan Lessa, no consagrado hebdomadário O PASQUIM, porrete de humor e cultura que atenazou a ditadura de 1964-1985.

Na verdade, quem procurou conhecer Belém deve ter apreciado boa amostra da cidade, em particular como patrimônio histórico. Mas a metrópole Belém não poderia, claro, oferecer a um visitante-padrão certas indicações do que é o universo amazônico. Afora o óbvio oferecido a turistas (informações sobre comidas típicas, fauna e flora, digamos), um visitante nunca imaginaria quão diferente do aeroporto da metrópole Belém é a configuração típica da rede de aeroportos da Amazônia: faixas de terra plana e desmatada - em contraste óbvio com a floresta que os envolve. Equipamento frequentemente usado como apoio logístico para fins ilícitos.

Antes do próprio início da COP30, já se via na mídia a manifestação de um grupo ambientalista, possível pretendente a participar do evento, no sentido de que a Grande Floresta não deveria ser objeto de exploração econômica de produtos dela advindos. O açaí, por exemplo, disseminado na Amazônia por tribos que a habitavam, não teria a atual disponibilidade se os habitantes do último milênio não houvessem iniciado a exploração econômica desta apreciada fonte alimentar dos indígenas. Explorar economicamente a floresta em pé - de maneira sustentável: questão e desafio, a dualidade de sempre.

Uma questão-chave - a da contribuição per capita, em cada nação, versus contribuições nacionais globais de gases de efeito estufa (aquecimento global) - não ganhou significativo público. Contribuições nacionais para o aquecimento global são obviamente maiores segundo a grandeza da população, considerados países com a mesma contribuição per capita. No entanto, a via da contribuição per capita - frente a contribuição nacional - é mais justa como indicador de responsabilidade econômica. Um país pequeno, com intensa contribuição per capita, pode passar ao largo de compromissos com a devida contribuição reparatória.

Menos controversa é a óbvia questão das contribuições serem as relativas ao estoque global de gases de efeito estufa, em vez das contribuições anuais atuais. A Europa e os países norte-americanos - o Canadá e os EEUU - têm maior contribuição que países de relativamente semelhante contribuição atual, na medida em que aqueles são antecipadamente mais desenvolvidos, com modelos de crescimento baseados na queima de combustíveis fósseis, décadas à frente do resto do mundo.

Ocorre que a COP30 veio a ser "premiada" com um incêndio, algo inédito em reuniões científicas, técnicas e governamentais devotadas a proteção do meio ambiente. Dignatários a correr, na Zona Azul, até esbarrando em sentidos opostos, a despeito de interpretar os mesmos sinais de saída estrategicamente dispostos conforme recomendações do Corpo de Bombeiros. Teriam alguns ignorado os sinais, ou tratava-se de leitura equivocada? Afinal, tais sinais são feitos para pronto entendimento mesmo por não entusiastas da cultura escrita.

A primeira cogitação para o fatídico incidente foi de que teve início em um equipamento eletrônico, talvez a bateria de um celular ou de um notebook. O fato é que o inédito acontecimento teve possivelmente vários contribuintes, o que não é infrequente. Quem sabe, eventual violação de padrões de segurança, durante a construção de segmento emergencial da rede elétrica para a COP30. Infelizmente, entra para a história o primeiro incêndio em um evento de tal porte e de tal natureza. Haveria um conteúdo profético? Afinal, há a chance nada desprezível de que a Amazônia venha a se apresentar com uma vegetação tipo savana. E, mesmo em décadas, converter uma cobertura vegetal de quarenta metros de altura, da mais alta densidade de matéria sólida, em uma de densidade rala e com escassos metros de altura: clara chance de fogo que resulte de raios ou de combustão instantânea de matéria vegetal exposta a intensos raios solares, o que resulta em altas temperaturas na superfície terrestre. Seja como for, é preciso pensar em tal possibilidade, e considerar o que fazer para que os humanos habitantes da floresta fiquem a salvo, mesmo não dispondo dos avisos de saída que foram mal interpretados por dignatários da Zona Azul.

O principal ponto de importância na maior e mais intensa construção do desastre climático está na emissão de dióxido de carbono, resultado da queima de combustíveis fósseis, responsável atualmente por cerca de 70% do efeito estufa. Um caminho de 'desfossilização' da matriz energética mundial era esperado. Mas, necas de caminho vislumbrado em algum tipo de acordo firmado. Nem caminho, sequer uma mera e tosca trilha. Um resultado desastroso para todos, principalmente para os mais jovens, que terão de enfrentar vicissitudes de mais intensos efeitos negativos e por mais tempo do que os decisores, de mais avançada idade. Mais desastroso ainda para os humanos que estão por vir.

E reitere-se: a obrigação de contribuir para implementação de soluções de adaptação, aliviando os efeitos deletérios do Aquecimento Global, deve ser proporcional à contribuição que foi dada à causa dos desastres climáticos, não à contribuição anual agora em curso. Crucial marco metodológico.

Adriano Batista Dias, engenheiro Mecânico (Escola de Engenharia de Pernambuco - UFPE, 1964), PhD em Economia (Vanderbilt University, 1976).

Tarcisio Patricio de Araujo, economista, professor aposentado, UFPE. PhD em Economia (University College London, 1994).

 

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