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Dayse de Vasconcelos Mayer: A sentinela noturna

Tudo isso ficou manifesto no discurso de posse de Trump, incluindo a compra da Groenlância, Ilha do Atlântico Norte pertencente à Dinamarca

Por DAYSE DE VASCONCELOS MAYER Publicado em 18/01/2026 às 6:00

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Em fins de 2025, a Casa Branca publicou o documento “Estratégia de Segurança Nacional” onde propõe a retomada da política externa do ex-presidente James Monroe (1758-1831) – “A América para os Americanos”. O documento, com 33 páginas, contendo uma justificativa para a intervenção dos EUA em outros territórios, revela-se um travão à imigração ilegal, um freio ao narcotráfico e uma justificativa para o esbulho das riquezas de outros países. O escrito parte do princípio de que a hegemonia norte-americana está em ameaça. Seria imperativo pensar nas formas de reversão desse quadro. O texto enfatiza que nenhuma nação detém o direito de contrariar os interesses norte-americanos em matéria de proveito econômico das riquezas locais.

Tudo isso ficou manifesto no discurso de posse de Trump, incluindo a compra da Groenlância, Ilha do Atlântico Norte pertencente à Dinamarca, bem como a incorporação do Canadá aos EUA convertendo o País vizinho no 51º Estado norte-americano. Foi assim que os EUA expandiram o seu território, incluindo, por compra, a Luisiana em 1803 e o Alasca em 1867.

Mas o presidente norte-americano não parece seguir uma política externa interessada no soerguimento da doutrina Monroe. Ao contrário, talvez pretenda adaptar ao século 21, com pouca criatividade, a velha “diplomacia da canhoneira”, deixando de lado as questões de ordem ideológica. Pouco importa que o país latino-americano seja de direita, esquerda ou centro. É mais valioso ceder à influência ou hegemonia dos Estados Unidos. As palavras de Trump não deixam dúvidas: “Recompensaremos e encorajaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região (Hemisfério Ocidental) amplamente alinhados com os nossos princípios e estratégias”. O documento ainda prevê que a Agência Central de Inteligência (CIA) mapeie recursos naturais estratégicos na América Latina e estabeleça o monopólio dos EUA sobre o fornecimento de tecnologia na região.

Por conta dessas afirmações introdutórias, não parecia extraordinário que, no terceiro dia do ano em curso, a Venezuela despertasse de um pesadelo. Em alguns bairros tranquilos de Caracas, o fogo invadia a floresta e a fumaça adentrava nas casas, antes tranquilas. Logo a mídia ratificava a notícia do sequestro de Nicolás Maduro numa operação especial realizada em três horas, com zero baixas civis. Deitava-se na lixeira a Carta das Nações Unidas e, nomeadamente, o direito de não intervenção e os princípios que norteiam a ordem internacional. Aliás, Trump declarou, há poucos dias, em entrevista ao NYT, “que não necessita do Direito Internacional para nada, e que as decisões da ‘América’ só serão limitadas pela sua própria racionalidade moral” (Público, 12/01de 2026). Esse aparato de poder e força prepara, sem dúvida, as eleições no Brasil, Colômbia, Costa Rica, Peru e Haiti.

Para a surpresa dos intelectuais de língua portuguesa, tudo parece indicar que Trump está recorrendo “sem que intuísse esse talento”, ao escritor Eça de Queiroz. Tal percepção foi observada no momento do “discurso acaciano” após a prisão de Maduro: vazio, faceirado, pomposo e despojado de conteúdo. As farpas do escritor vaguearam pelo planeta na forma de antídoto contra a velhacaria, arteirice, blefe, embuste, intervencionismo, hipocrisia e pragmatismo.

Há muitos meses, Trump montava esse cenário acusando Maduro de colaborar com o narcotráfico, afirmando que o governante havia se distanciado do Estado de Direito e empurrado sete milhões de pessoas para o exílio. Além disso, o regime tinha, anulado eleições, enclausurado candidatos opositores e torturado dissidentes. Trump não deixou de lado a palavra “transição”, embora com sentido viciado ou pervertido. Até porque os caminhos da transição são abertos e, ato contínuo, automaticamente fechados. Dificilmente iremos receber notícias rápidas de mudanças na Venezuela, de realização de eleições diretas, libertação de presos políticos, retorno dos venezuelanos ao seu país de origem, reconstrução da ordem constitucional e melhoria do bem-estar da população. A verdade, que não pode calar, é que Trump exorciza a palavra democracia. Basta analisar os pronunciamentos do presidente na época em que ele foi candidato e no dia em que assumiu o poder nesse segundo mandato. Não há dúvida que a visão do Executivo norte-americano está bem mais próxima de Putin e de Xi: repartição do mundo em grandes zonas de influência, dominadas por potências hegemônicas. Sabe-se, contudo, que um planeta organizado em torno de zonas de influência é bem mais ameaçador e arriscado. . Putin e Xi sabem o que se passou nas grandes guerras mundiais provocadas por potências que desejavam alargar essas zonas. Não deu certo no século 20, será que daria no século 21?

Na obra “Política”, Aristóteles escreveu que aqueles que velam pela segurança e salvação do Estado devem fingir que estão em perigo para que os demais cidadãos, alarmados, se mantenham na condição de “sentinela noturna”. Associo a afirmação com uma frase-conceito de André Malraux: “a nação é uma comunidade de sonhos” (communauté de rêves). Infelizmente, a sentinela noturna do século 21 está mais atenta à "comunidade de mortos", expressão utilizada por Maurice Barrès e muito adequada ao que se passa no mundo atual onde não existe solidariedade, soberania, cooperação, direitos humanos, reciprocidade, paz e segurança, migração e refúgio. A União Europeia vem sendo alertada, continuamente, de que “interesses espúrios ameaçam o planeta. Mas nenhuma reação, fora da retórica malsã, vem sendo observada. Enfim, a vaga para a função de “sentinela” está disponível, inclusive para velar os sonhos.

Dizem que Trump é um governante versátil. Utiliza, por exemplo, os seus momentos de lazer para admoestar os filósofos. Acredita que a filosofia desafia o “status quo”, questiona ideias, valores morais e estruturas de poder. Teria uma função maléfica no universo: a de agressão intelectual na medida em que perturba a aceitação acrítica do mundo como ele é. Por isso Trump baniu a obra “O banquete”. Já não pode ser consultada nos cursos de filosofia da Universidade do Texas porque promove a ideologia de gênero. Também na abertura do ano de 2026, os professores de inglês receberam um aviso escrito: as obras literárias contendo assuntos sobre homossexualidade, lesbianismo e trans-sexualidade deveriam ser eliminadas do currículo básico. Na listagem figuravam os livros de Marguerite Yourcenar, Virginia Woolf e Thomas Mann (Globo, 11/01/2026).

Por certo, um estudo aprofundado do que vem ocorrendo em matéria de intervencionismo dos EUA revelará que a operação na Venezuela nada teve a ver com problemas sexuais de Maduro, extermínio do narcotráfico e aumento do salário mínimo venezuelano fixado em um dólar por mês ou 130 bolivares. O “leitmotiv” é de origem econômica e vai além dos olhos gulosos do presidente pelo petróleo a ser explorado pela Exxon Mobil, ConocoPhillps, Chevron e outras. O tempo confirmará, quem sabe, a verdade escondida ou oculta. O certo é que Maduro foi inconsequente e desastrado na tentativa de negociar o petróleo em yuan chinês. Por isso o Brasil deve estar bem vigilante às sugestões de Lula no BRICS para criação de uma moeda substitutiva do dólar. Afinal, não se brinca com fogo! Afinal, o desempenho político é um campo extenso onde arte e espetáculo se entrelaçam com o poder, daí as palavras do presidente de Cuba: os governantes latino-americanos devem cerrar fileiras porque não é o momento para meias tintas. É tempo de definição, imposição e de tomar partido frente à barbárie imperial. Do outro lado, num picadeiro agregado, escutaremos as vozes das sentinelas: os EUA são a potência mais influente e prestigiosa do Globo. Obedeçam em vez de tentar resistir

Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciências jurídico-políticas

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