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O Brasil está vulnerável

A nova "Doutrina Trump", combinada à velha "Doutrina Monroe", se configura como novo modus operandi dos estadunidenses. Analistas batizam de "Donroe"

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 17/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 17/01/2026 às 13:16

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Os meus foram espetaculares. Família reunida, troca de presentes, orações por saúde e paz, netos mais velhos, correndo de um lado para o outro.

Os novos gêmeos, crescendo e cativando-nos. O ganhar peso exigiu mudança da fórmula (é como chamam agora o velho leite em pó). Descobri também que o aparelho digestivo de gemelares amadurece tardiamente.

Lastimosamente, mal nos despedíamos de 2025, o mundo, como em ressaca de bebida adulterada, exibia sinais de que a geopolítica global ingressava em um pântano de instabilidade e imprevisibilidade.

No dia 3 de janeiro, tropas dos Estados Unidos invadiram a Venezuela, capturaram seu presidente e o levaram para ser julgado em território americano.

Justificativas? Muitas, às vezes improvisadas, às vezes incoerentes. A poderosa águia rompeu qualquer ilusão de estabilidade no Cone Sul. Foi uma mensagem inequívoca, na qual o uso direto da força voltou a ser opção concreta em sua política internacional.

A nova "Doutrina Trump", combinada à velha "Doutrina Monroe", se configura como novo modus operandi dos estadunidenses. Analistas já a batizam de "Doutrina Donroe".

A lógica é que o Hemisfério Ocidental passa a ser tratado como zona de influência prioritária dos Estados Unidos. A diplomacia, ancorada em uma força militar fenomenal, terá baixa tolerância a antagonistas.

Já há sinais de possíveis ações na Groenlândia, Colômbia, Cuba e México. Embora tenha se concentrado no Hemisfério Ocidental, Trump não abandonou outras áreas como o Oriente Médio, Irã, Mar Vermelho e África, o que sugere um padrão de atuação difuso, mas assentado na assimetria de poder.

Esse reposicionamento é sustentado por números eloquentes no campo militar. O orçamento de defesa dos EUA para 2027 será de US$ 1,5 trilhão, um aumento de 60% em relação ao ano anterior. Não há dúvida sobre o efeito dessa montanha de recursos aplicada nas Forças Armadas daquele país: imposição da sua supremacia em âmbito global.

O mundo atual lembra o velho jogo WAR. Blocos de países com pesos estratégicos distintos e, para vencer no tabuleiro, usa-se a lógica de conquistas sucessivas. Continentes voltam a ser tratados como espaços a dominar. Para tanto, alianças se rearranjam, rivalidades se aprofundam e traições integram o cotidiano das relações internacionais.

E o Brasil, onde se situa nessa brincadeira perigosa?

Nossa sociedade mantém relação distante com a guerra. Não estamos habituados ao "saco preto" que traz os corpos de soldados mortos em combate.

O último conflito de grande vulto foi a Guerra do Paraguai, no século XIX. Na Segunda Guerra Mundial, apesar da bravura da Força Expedicionária Brasileira, fomos coadjuvantes na grande estratégia aliada e os impactos anímicos da perda de vidas ficaram nos campos da Itália.

Consolidou-se a percepção de que o uso da força é algo extremo, quase irracional. Em sua maioria, nossos decisores - exceção se faça aos líderes militares e a alguns civis estudiosos da guerra - não pensam o futuro incorporando a variável da guerra.

Essa visão pueril nos cobrará um preço elevado.

No plano internacional, apostamos na diplomacia, no multilateralismo e na eficiência dos organismos internacionais. A realidade indica que a ONU perdeu capacidade de impor respeito às próprias regras. Grandes potências ignoram resoluções, vetam sanções e agem unilateralmente.

Sofremos, ainda, a dependência externa de material de emprego militar e de tecnologias sensíveis de defesa. Para um país detentor de cobiçadas riquezas, essa dependência é estímulo permanente à investida de terceiros.

A questão não é se o Brasil se evolverá em conflitos. A resposta está dada: SIM. A pergunta que cabe é como o país pretende se posicionar em um mundo cada vez mais orientado pela realpolitik.

Precisamos abandonar ilusões melianas. É mister pensar e investir de forma consistente em defesa e seus apêndices, o que não significa abdicar da diplomacia como instrumento do Estado.

Significa fortalecê-la. Significa dar-lhe voz, peso e credibilidade. Significa ter a opção real de negociar com alguma chance de empatar o jogo. Significa ser capaz de defender-se. Significa por fim, não ser invadido e humilhado.

A história ensina que a guerra raramente pede licença para entrar em nossa casa. Como advertiu Trotsky, mesmo quando a guerra não nos interessa, ela pode estar interessada em você.

Nossos netos agradecerão se formos diligentes e responsáveis no agora.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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