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O poder e a saúde mental

São muitos os exemplos de distorções no exercício do poder, bem como vários são os tipos de reação que provocam...........................

Por SÉRGIO GONDIM Publicado em 16/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 16/01/2026 às 11:44

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Quando um dirigente chega ao poder, sendo mentalmente saudável, poderá errar, acertar e mostrar quem verdadeiramente é, mas se for acometido de doença afetando a região frontotemporal do cérebro, o mundo pode acabar.

São muitos os exemplos de distorções no exercício do poder, bem como vários são os tipos de reação que provocam. Pode ser o responsável pela limpeza dos sanitários de um museu, com poder para interditá-los e decide fechar todos de uma só vez, submetendo os visitantes em urgência miccional a uma espera insuportável. Provoca rebelião e a abertura pela força de pelo menos um dos acessos, já que só poderia higienizar um por vez. Um caso de abuso de poder provocando revolta popular.

As autoridades não costumam tolerar bem as contestações e, quando confrontadas, reagem de várias formas. Vi um orientador de trânsito direcionando o fluxo dos carros com rispidez até que um dos motoristas decide ignorá-lo e faz a conversão lógica, mas desaconselhada. Sem poder para multar, sem armas, sem poder de perseguição, recua dando passagem, mas apita e aponta os dois dedos médios em direção ao motorista, a única reação que lhe pareceu capaz de demonstrar autoridade e manter a moral elevada no cargo.

Exemplos de distorções no exercício do poder, excesso de autoridade, papel ridículo e arbitrariedade estão em cada esquina, mas o problema assume outra proporção se um presidente eleito apresentar sintomas de doença mental. Pode começar de forma insidiosa, quase imperceptível, como se fosse um simples capricho do poder, um traço de narcisismo capaz de homenagear o próprio nome na placa de um centro cultural ou reivindicar publicamente premiações por desempenho. Seria estranho, meio patológico, provocaria constrangimento, mas sem maior impacto na sociedade. O quadro poderia evoluir com mentiras deslavadas, mudando as versões a cada momento, naturalmente, como se estivesse liderando idiotas. Definitivamente não seria normal. Surgiriam outras alterações comportamentais como desinibição, exacerbação de transtornos prévios de personalidade, comportamento socialmente inapropriado incluindo flatulência sem preocupação, invasão do espaço dos outros, na foto, na reunião entre os pares, na organização dos países, na ordem mundial. Seguiria com perda de noção de propriedade e empatia, expressando frieza, sem se importar com as emoções dos outros. Apresentaria hiper oralidade, a fala passaria a ser estereotipada e repetitiva. Interesses obsessivos ocupariam espaços que deveriam ser das obrigações para as quais fora eleito. Poderia acordar querendo ser dono da lua para explorar petróleo, sempre presente nos delírios de grandeza. Um dia causaria impacto e terror na economia com tarifas sobre as "pessoas más", no outro aliviaria por causa de uma boa química. Um dia acusaria, no outro absolveria. Um dia ameaçaria, no outro também. Um comportamento errático, aleatório, patológico. Seria acometido de sensação de grandiosidade ilimitada, se achando suficiente, acima de leis e acordos internacionais. Sua própria moralidade e sua mente perturbada passariam a ser os limites, ou seja, sem limites. Tais mudanças ocorrem sem que os poderosos pacientes se deem conta, sem sofrimento próprio, sem perceber ou sem se importar com o sofrimento que causam. Criam uma realidade própria que inferniza e, estando na função de chefe de uma potência militar, podem destruir o mundo.

Para prevenir, os eleitores precisariam estar atentos, inclusive aos sinais de doença mental dos candidatos, mas quando a maioria dos votantes também for acometida pela degeneração ou mesmo por uma disfunção frontotemporal, será mesmo o fim do mundo se o diagnóstico não for feito a tempo, levando ao afastamento por alienação mental e inimputabilidade.

Seria o caso em que o médico, mais do que uma vida, salvaria toda humanidade.

Sérgio Gondim, médico

 

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