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Patacoada

Roberto Carlos recusou-se a gravar "As rosas não falam", "porque as rosas falam". Ainda bem que os medíocres não têm o senso do ridículo.

Por ARTHUR CARVALHO Publicado em 14/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 14/01/2026 às 10:14

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Quando perguntaram a Ary Barroso porque suas músicas não faziam mais tanto sucesso, ele respondeu com sua habitual verve e ironia: Porque não sei escrever "encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora". Música popular é interessante e rica de casos e folclore.

Quando Antônio Maria começou a ganhar cartaz no Rio, com o seu enorme talento, surgiu uma rivalidade entre ele e Ary Barroso. Alimentando essa fofoca, diziam que segundo Maria, Ary baseava suas composições no ritmo do terreiro da Tia Ciata para dar suporte à melodia, tipo "Na batucada da vida," em parceira com Luiz Peixoto.

Em resposta, o genial mineiro compôs o samba-canção "Risque", em desabafo ao seu amor fracassado com a deslumbrante mulata e vedete baiana Guiomar, namorada de Didi, o Príncipe Etíope de Nelson Rodrigues para quem ele perdeu a parada.

Contam também - e essa é genial - que no leito da morte Ary pediu a Maria para cantar os primeiros versos de Aquarela do Brasil, ele cantou, Maria pediu a Ary para cantar "Ninguém me Ama" e Ary disse "não me lembro".

Essa conversa fiada é pra dizer que quando encosto momentaneamente Gregório de Matos, preso em todas as cidades que morou, em Portugal, Brasil e na África, e Joaquim Cardoso, de Congresso dos Ventos, perseguido pela Redentora, na estante, e ligo a televisão, vejo coisas de arrepiar.

No mais recente especial de Cartola, orgulho da música popular brasileira e do samba da Mangueira, ele queixou-se humildemente de Roberto Carlos ter se recusado a gravar "As rosas não falam", "porque as rosas falam". Ainda bem que os medíocres não têm o senso do ridículo. Quem é RC, que gravou "Eu sou o cara" e "Eu sou terrível" e outras baboseiras, que pedia pelas baleias enquanto os maiores compositores brasileiros, seus colegas eram presos, torturados e assassinados pela ditadura?

O maior admirador de Cartola era Villa Lobos que, após estudar profundamente sua obra em contatos pessoais disse: "Ele faz tudo errado, mas conclui tudo certo, ou seja: é gênio!"

Elis Regina, uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, que gravou um disco antológico com Tom Jobim definiu a Jovem Guarda como "patacoada, fruto da macaquice da péssima música americana." Vinícius de Moraes dizia que a única música do cara que merecia menção era "Namoradinha de um amigo meu." Cartola é irretocável.

Arthur Carvalho, da FENAJ

 

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