Condenado a ler
..Fiquei surpreso, como disse, porque, primeiramente, não imaginava que Bolsonaro sabia ler, e muito menos escrever... resenhas de livros lidos!
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Confesso que fiquei muito positivamente impressionado com o fato de Jair Bolsonaro solicitar ao Ministro Alexandre de Moraes, o benefício da redução da pena através da leitura de livros e seus subsequentes relatórios (ou fichas) de leitura: a cada livro lido e devidamente resenhado ele terá uma redução de quatro dias na pena de 27 anos, no limite de 12 livros por ano, perfazendo 48 dias de redução por ano de sua condenação.
O jornalista pernambucano José Teles sugeriu, muito perversamente, que ele lesse o "Finnegans Wake" de James Joyce (1882-1941), um livro que o autor levou 17 anos para escrever e envolve o léxico de mais de 40 línguas diferentes e rearranjadas semanticamente para obter efeitos de sintaxe, de interpretação, de fonética absolutamente insólitos, fazendo de Joyce, ao lado de Proust, os dois mais importantes escritores da modernidade literária do início do século XX. "Decifrar" (e resenhar!) o Fannegans Wake levaria, segundo Teles, uns 40 anos! Ora, a pena de Jair é de 27..., o que significa que...
De minha parte - e menos perversamente- fiquei surpreso, como disse, porque, primeiramente, não imaginava que Bolsonaro sabia ler, e muito menos escrever... resenhas de livros lidos! O que, na minha modesta opinião, ele estará atribuindo a si mesmo um acréscimo de pena, de dor, de sacrifício, de holocausto pessoal: LER e ESCREVER! Talvez, quem sabe, um último gesto de redenção pelos males que causou ao longo da vida. Mas, pela LEITURA? Será que ele, na cadeia, sentiu o "chamado" (voccatio) da conversão?
Saulo (Paulo de Tarso), depois de ter perseguido cristãos, viu uma luz no Caminho de Damasco que o cegou por três dias (Bolsonaro tem um dia a mais para cada "conversão" pela leitura!) e tornou-se aquilo que tanto perseguiu: a consciência que se examina a si mesma e aceita uma conversão desejada e não imposta: a ideia de "circuncisão da alma" (Epístola aos Gálatas).
Bolsonaro, aparentemente, passou a vida "cego" para os "outros", a verdadeira "alteridade": os homossexuais, as mulheres, os gordos, os comunistas, os "petralhas", os pobres, os negros, os povos primitivos, os quilombolas, os intelectuais..., e dificilmente se converterá - no sentido paulino da empatia por aqueles que perseguiu: no máximo ele reduzirá em quatro dias sua longa e merecida pena lendo, quem sabe, "As reinações de Narizinho". E olhe lá!
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Leitura, meus amigos, é uma estranha relação em que, através de um texto grafado em uma "plataforma" (papiro, estela, papel, pergaminho, tela, pano...) nós somos "abduzidos" do tempo e do espaço. Umberto Eco dizia que uma pessoa que não lê tem apenas UMA vida; uma pessoa que lê tem cinco mil anos de VIDAS. "A LEITURA, diz, É UMA IMORTALIDADE DE TRÁS PRA FRENTE!".
Poder viver vidas vicárias (entrar na vida dos outros) sem sequer sair de sua própria individualidade, mas dividi-la com personagens invisíveis; "morrer" com Gravoche ou com Bovary sem precisar perder sua própria vida; imaginar sociedades perfeitas e saber que terá que voltar ao seu cotidiano tedioso (ou tornar-se militante de uma causa); subir o Sinai com Moisés e voltar de lá sabendo que o Mundo não seria mais o mesmo; mergulhar nas memórias de um falecido que decidiu não legar seu infortúnio pra ninguém; aceitar que uma prostituta possa te redimir de um crime que cometeste... E, um dia, entender que uma BIBLIOTECA - esse lugar onde organizamos um passado na companhia de ausentes- pode ser uma representação de DEUS; que a leitura é um modo de viver e de se relacionar com espaços e tempos, esperanças e dores, ilusões e desesperos, alegrias e desencantos... dos quais nunca mais nos separaremos. E acho muito improvável que Jair Bolsonaro possa compreender isso.
Nesse caso, acho que a indicação bibliográfica de José Teles - e, aqui, eu me penitencio!- não é exatamente "perversa": acho que ele quer um acréscimo de pena a um homem que nunca compreenderá a relação entre leitura e condição humana. E, de minha parte, peço ao Ministro Alexandre de Moraes que obrigue aquele condenado a ler "SER e TEMPO" de Heidegger.
Com 30 dias pra entregar a resenha...
Flávio Brayner , professor Emérito da UFPE