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Frei Caneca, herói e humanista

Frei Caneca pode ser compreendido como um dos grandes precursores de um humanismo brasileiro, profundamente enraizado na realidade social

Por ROBERTO PEREIRA Publicado em 11/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 12/01/2026 às 10:22

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Sou, de há muito, um devoto de Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo Caneca - Frei Caneca -, segundo o historiador George Cabral, o maior herói brasileiro, que, no dia 13 de janeiro de 1825, no esplendor dos seus 45 anos, foi condenado por Dom Pedro I e diante dos muros do Forte das Cinco Pontas, arcabuzado, após os carrascos se recusarem a enforcá-lo, apesar do prêmio da alforria.

Onde pude, em toda a minha trajetória de vida, exaltar Caneca, herói da Revolução Republicana e Pernambucana de 1817 (6.3.1817) e herói e mártir da Confederação do Equador (2.7.1824), exaltei. Também exortei estudantes e cidadãos à preservação de sua memória, pouco lembrada pelos brasileiros e, sobretudo, pelos pernambucanos.

Para todos, recito um dos seus versos mais consagrados:

"Entre Marília e a pátria / Coloquei o meu coração: / A pátria roubou-me todo, / Marília que chore em vão."

Pude homenageá-lo, com o assentamento de um busto, no Recife, no Largo das Cinco Pontas, no dia 2.7.1981, no ensejo do 157º aniversário daquele movimento, a Confederação do Equador, que atravessou o tempo, por ser uma afirmação de bravura, de integração e de análise social de nossa realidade e de nosso destino.

Chamo Frei Caneca e o destemor de sua poesia:

"Quem passa a vida que eu passo / Não deve a morte temer, / Com a morte não se assusta / Quem está sempre a morrer."

O busto aqui mencionado, de autoria do escultor Wamberto Jácome, considerado, à época, um dos maiores escultores clássicos do Brasil, cuja colocação, em 1981, nasceu de uma parceria entre o Colégio Radier, quando ocupava a Presidência daquele educandário, e a Prefeitura da Cidade do Recife, então comandada por Gustavo Krause, que, além de professor de História, sempre foi um gestor identificado com as causas político-libertárias de Pernambuco.

Sempre Caneca:

"A medonha catadura / Da morte fria e cruel /Do rosto só muda a cor / Da pátria ao filho infiel."

Ainda o nosso frade carmelita:

"Tem fim a vida daquele / Que a pátria não soube amar /A vida do patriota / Não pode o tempo acabar."

Os alunos do Colégio Radier criaram, em 1981, o Centro Cívico Frei Caneca, aqui citado apenas para mencionar o quanto aqueles educandos assimilaram todo um fervor à figura magistral do nosso herói, que exclamava: "quem bebe da minha caneca tem sede de liberdade."

Seria Caneca, o autor, em versos simples, traçando para si, o seu epitáfio imperecível? Ouçamo-lo:

"O servil acaba inglório / Da existência a curta idade: / Mas não morre o liberal, / vive toda a eternidade."

Não se podia escolher melhor nome para as atividades cívicas daquele educandário, onde pulsavam os verdes anos de uma geração inquieta. Porque ele, frade carmelita, herói de duas revoluções, é uma afirmação de nossa consciência de Pátria.

O que é o civismo, pergunto, senão a valorização dessa consciência, a convicção de que marchamos para o futuro, enaltecendo e cultuando os nossos heróis e os nossos mártires do eterno sonho de liberdade e de justiça?

Frei Caneca pode ser compreendido como um dos grandes precursores de um humanismo brasileiro, profundamente enraizado na realidade social, política e cultural do país no início do século XIX.

Sua atuação intelectual e política ultrapassou os limites do pensamento abstrato, vinculando-se diretamente às lutas concretas por justiça social, cidadania e liberdade em um Brasil marcado pela herança.

Frei Caneca - diga-se alto e em bom som - teve papel central na Revolução Pernambucana de 1817 e, mais tarde, na Confederação do Equador, em 1824. Ambos os movimentos buscavam romper com estruturas opressoras e defender maior autonomia política, o federalismo e a participação popular no governo.

Em seus textos publicados no jornal Typhis Pernambucano, Frei Caneca criticava duramente o centralismo do poder imperial e denunciava as injustiças cometidas contra as províncias do Norte e Nordeste.

Sua escrita clara e contundente tinha como objetivo conscientizar a população e estimular o pensamento crítico, reforçando seu compromisso com a educação política do povo.

No seu Thyphis Pernambucano, encimava cada artigo com as seguintes palavras:

"Uma nuvem que os ares escurecem

Sobre nossas cabeças aparece.

(Camões. Canto 5).

E no final:

"Cautela, união, valor constante,

Andar assim, é bom andar. Boa Viagem."

(Caneca - o.cit.vol.II. pp 415-620)

O momento atual é de reconhecimento à bravura de nosso frade, dos seus conhecimentos literários e matemáticos, poeta, escritor, filólogo, geômetra, filósofo, teólogo.

Frei Caneca é uma das maiores figuras do humanismo brasileiro.

Poeta, em verso, disse:

"O patriota não morre / vive além da eternidade / sua glória, seu renome / são troféus da humanidade."

Ele e a sua bravura: "Quando a nau, em mares procelosos, está em perigo, todo cidadão é marinheiro." Ei-lo lutando em defesa dos ideais de liberdade e de cidadania.

É Frei Caneca, que, quanto mais se afasta no tempo, mais se vai da Lei da Morte libertando.

Viva Caneca, vivo, mesmo que morto!

Roberto Pereira, Cadeira 35 da Academia Pernambucana de Letras

 

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