Carapicu
Comprei um concriz ao gaioleiro Ferreirinha, em novembro de 1952, quando ele passou defronte da nossa casa na rua das Graças Nº 348
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O trio final mais famoso do Galícia de todos os tempos foi o tricampeão baiano de 1941, 1942 e 1943: Nova, Carapicu e Daruanda. Para muitos, Nova foi o maior goleiro baiano. Maior que Leça, Menezes, Bonfim e Nadinho. Porque, diziam os entendidos, ninguém tinha sua colocação. Mas Nova era indisciplinado. Gordo, não fazia "individual", dizia que exercício era pra quem corria e ele não precisava se mexer pra cuiar a bola. Quando se zangava com a marcação errada do árbitro, chutava a bola pra sua própria meta, fazendo gol contra o Galícia. Por isso, era o terror dos árbitros e ídolo da galera debochada da geral.
Comprei um concriz ao gaioleiro Ferreirinha, em novembro de 1952, quando ele passou defronte da nossa casa na rua das Graças Nº 348. Naquela época eu criava passarinho. Concriz em Pernambuco é o mesmo sofrê na Bahia, e corrupião no Sudeste. O belíssimo sangue-de-boi de asas negras e dorso vermelho daqui, é o tiê-sangue do Rio de Janeiro.
Comprei o concriz que me parecia esperto e fogoso. Faltava batizá-lo com um nome sugestivo. Talvez com saudade da Bahia, me veio à memória aquele trio tricampeão dos granadeiros: Nova, Carapicu e Daruanda.
Passei a tratar Carapicu com carinho e afeto. A tomar o café da manhã com ele, na minha mesa. Miolo de pão com leite, mamão, cuscuz, ovo cozido e queijo coalho. Depois batia asas e voava, pousando nas árvores frutíferas dos quintais e jardins vizinhos. A fome o trazia pro almoço mais reforçado que o café. Como ouvíamos muito Luiz Gonzaga, Carapicu aprendeu a assobiar a primeira estrofe de Asa Branca: fififi, fifi, fifi (quando olhei a terra ardendo), e tornou-se atração principal de nosso bairro. Numa manhã chuvosa de inverno, Carapicu tomou café comigo, pousou no pé de cupuaçu de Bebé Seixas, voou em direção à Torre, anoiteceu e não regressou.
Dois dias depois fui procurá-lo na feira da Madalena e ao ver a gaiola de Limoeiro ele estava lá. Perguntei ao gaioleiro onde ele teria encontrado meu concriz, ele respondeu que comprou na Paraíba. Aí me veio uma ideia. Comecei a assobiar e estalar os dedos na grade da gaiola. Carapicu pendurou-se nas grades e cantou Asa Branca. Foi de arrepiar. Limoeiro empalideceu. Dizem que homem não chora. Pois eu chorei de emoção no verdor dos meus 17 anos e trouxe Carapicu de volta ao nosso lar.
Arthur Carvalho, da Associação da Imprensa de Pernambuco - AIP