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A palavra e o poder

Acredito "mais no poder da palavra do que no poder das armas", afirmou o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva..................

Por SÉRGIO C. BUARQUE Publicado em 24/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 24/12/2025 às 6:27

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O presidente Lula da Silva pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ingenuidade. Por isto, soa artificial e demagógico quando ele fala para o presidente Donald Trump que a palavra tem mais poder que as armas. Depois que Trump mencionou que os Estados Unidos tinham mais armas, navios e bombas que qualquer outra nação e que, no cerco da Venezuela, tinha enviado "a maior Armada já reunida na história da América do Sul", Lula aconselhou o imperialista norte-americano a substituir o enorme poder militar dos Estados Unidos pela palavra. Acredito "mais no poder da palavra do que no poder das armas", afirmou Lula. De acordo com o presidente brasileiro, o homem mais poderoso do mundo deveria renunciar às armas e, com a palavra, convencesse o ditador da Venezuela a abandonar o poder e se exilar em algum país amigo.

Ingenuidade semelhante Lula tentou mostrar quando se posicionou em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia, lembrando conselho materno, repetido agora na crise da Venezuela. "Minha mãe dizia, quando um não quer, dois não brigam". Todo mundo sabe que a Ucrânia não queria brigar, foi invadida por uma poderosa força imperialista e teve que se defender e nada indica que conseguiria convencer Vladimir Putin a suspender a invasão se não tivesse resistido militarmente. Se trata de uma disputa de poder entre a forte Rússia e a frágil Ucrânia, que conta com o apoio político e militar da Europa e, em parte, dos Estados Unidos para se defender das tropas russas. Da mesma forma, Maduro ataca verbalmente o imperialismo americano, mas não pretende entrar em guerra com os Estados Unidos porque sabe que a Venezuela seria esmagada. O ditador Nicolas Maduro não tem poder militar nem força moral da palavra para convencer Trump a tirar a poderosa Armada norte-americana da sua fronteira. Para isso, teria que contar com o poder de dissuasão das instituições multilaterais (Nações Unidas e OEA) e de países aliados que, por enquanto, se limitam à palavra em manifestações e protestos.

A postura de Lula nos dois conflitos, com uma ingenuidade quase pueril, serve para esconder a sua ambiguidade na política externa. Não pode manifestar, abertamente, a sua simpatia por Putin, que invadiu um país soberano desrespeitando regras internacionais de convivência, nem a sua afinidade ideológica com Maduro, que está pisoteando a democracia e destruindo a Venezuela. A defesa da palavra como alternativa ao recurso da força tem a vantagem adicional de apresentar o presidente Lula como um pacifista e humanista, ganhando simpatia na sociedade. Na sua vida política, Lula tem demonstrado uma inclinação para a negociação política e uma tendência a superestimar a sua capacidade de convencimento dos parceiros e mesmo adversários. Ele deve ter certeza de que foi a "química" e, principalmente, sua capacidade de argumentação - a força da sua palavra - que convenceram Trump a recuar, parcialmente, das sanções comerciais e da aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes.

De ingênuo, Lula não tem nada. E embora ele tenha um evidente talento de sedução com um bom manejo da palavra, ele é um político pragmático e consciente do jogo de poder nas negociações políticas, mesmo sem recorrer às armas. Homem público muito experiente, acostumado a embates e negociações políticas que envolvem diferenças de interesses e disputas de poder, Lula sabe que a força da palavra depende de quem fala, vale dizer, do poder real (inclusive armado) dos que a verbalizam, cada palavra carregada do recurso da força de cada um dos negociadores. Entretanto, a força do carisma (dominação carismática, de Max Weber) no convencimento dos interlocutores, está menos na palavra (a argumentação e o proselitismo) e mais na capacidade das pessoas de influenciarem os interlocutores e despertarem admiração e simpatia (o Soft Power nas relações internacionais). O carisma é também uma forma de poder, um talento especial do político - de que Lula é, indiscutivelmente, dotado - um dos aspectos do Soft Power que, no entanto, não é capaz de enfrentar o Hard Power de Donald Trump.

Diante da mais poderosa máquina de guerra do planeta, controlada por um presidente arrogante, insensato e descontrolado que está provocando uma completa desorganização geopolítica global, a palavra não tem qualquer poder. O presidente Lula, corretamente, não correu atrás de Trump quando foram definidas as sanções, não tinha poder de barganha para uma negociação equilibrada; o governo brasileiro protestou, usando a palavra sem efeito concreto, mas procurou abrir alternativas comerciais e estabelecer vínculos diretos com empresários norte-americanos para criar musculatura nas negociações que vieram mais tarde. O poder real que levou Trump a revisar sua posição, foi o impacto das suas sanções na economia norte-americana, a inflação provocada pelas elevadas tarifas, a reação de grupos empresariais internos e a percepção da crescente influência da China na América Latina e, principalmente, no Brasil. A nova política de segurança dos Estados Unidos define claramente a prioridade à América Latina através da qual Trump pretende consolidar a hegemonia no continente latino-americano, em parte assustado com o avanço chinês.

Nestas condições, a palavra passa a ter alguma relevância na mesa de negociações, deixa de ser apenas palavras porque carrega forças reais de pressão sobre o governo dos Estados Unidos. Este é o poder real que pode ser utilizado pelo Brasil para contrapor-se ao Hard Power de Donald Trump.

Sérgio C. Buarque, economista

 

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