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Apenas num instante

Passado é mais intenso pela lente do presente, agora e futuro. O instante fica mais luzente quando percebemos que ele envolve a dignidade do silêncio

Por DAYSE DE VASCONCELOS MAYER Publicado em 21/12/2025 às 23:19

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Dentro de três dias estaremos vivendo mais um Natal. Recordo, de imediato, a frase de Clarice Lispector: “se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira”. A citação da escritora que viveu a infância no Recife, vem acompanhada da conjunção “se”. Esta é que irá tecer o instante – inserto no ato de existir. O passado fica mais intenso quando o encaramos pela lente do presente, do agora e do futuro. O instante fica mais luzente quando percebemos que ele envolve a dignidade do silêncio. Um silêncio que dispensa condescendência. Mesmo quando rompemos esse estado de paz e remanso com uma pergunta, logo entendemos que um ciclo interminável de outras indagações é iniciado.

Dois amigos brilhantemente inteligentes fizeram questão de revelar o “se” em nossa vida – José Paulo Cavalcanti e Carolina Guerra. Sem querer, ou querendo, o primeiro brincou com a afirmação contida numa das minhas crônicas, de que uma imortal da ABL faleceu aos 85 anos.... E ele indaga: “E a imortal não era imortal. Como pode? Dayse querida”. A segunda telefonou de Portugal para discordar de uma ideia contida no meu último escrito. Todavia, a verdadeira razão era comunicar que estava arrependida de não haver ficado no Brasil para comemorarmos juntas o Natal de 2025. Tinha medo de me perder, justificava. Os dois amigos submergiram aos conceitos de mortalidade/imortalidade.

A observação jocosa do primeiro permitiu que eu recordasse as ideias de Miguel Unamuno, representante do existencialismo cristão. Seus livros – nomeadamente “Del sentimento trágico de lá vida em lós hombres y en los pueblos” falam sobre solidão, medo perverso da morte e anseio de imortalidade — temas que estão presentes em todos os tampos. Coube ao filósofo, a defesa do conceito de “imortalidade irracional”, algo imprescindível a cada homem para barrar o sentimento ruinoso de desespero diante do absurdo e das contradições da vida.

Outros pensadores defenderam a ideia de que a consciência de que somos eternos é algo enfastiante e cansativo. Jamais suportaríamos uma festa que jamais findasse. Essa justificativa pressupõe uma digressão sobre a felicidade permanente. Sem aprofundamentos, afirmamos que o estado de entusiasmo, ou alegria inalterável é um contrassenso porque caminha, inexoravelmente, para o tédio e vazio existencial. Assim admitia Arthur Schopenhauer quando delineou a vida como a oscilação constante entre dois extremos. Eis a metáfora do “pêndulo” que balouçaria entre a dor e o enfado ou entre o desejo de algo que ainda não temos e a plenitude – sempre provisória - de uma conquista, daí a sua frase muito conhecida: “A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir". Nesse caso, a felicidade duradoura seria algo inatingível, exceto para o sábio que encontraria alternativas de escape (“O mundo como vontade e representação”).

Revendo o tema da imortalidade, anoto para José Paulo que a capacidade e o talento, existentes no homem, se perpetuam através dos séculos. Cada criação humana desafia o tempo e se incorpora a outros inventos cada vez mais provocantes. Obras de arte, músicas e escritos, doutrinas, ideologias atuam como um repositório da genialidade humana. É através da mente criadora do homem e das suas emoções mais puras — que a imortalidade se renova e transcende à existência biológica. Em síntese, o corpo deixou de existir, mas permanece a obra (em sentido muito amplo) produzida pelo espírito.

Cito o exemplo do grande escritor Machado de Assis, considerado o único ou verdadeiro imortal brasileiro e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL). Na troca de correspondência entre Machado e Joaquim Nabuco em 17 de novembro de 1904, quando Nabuco estava em Londres, lemos a notícia da morte de Carolina, esposa de Machado, seguida do registro de Nabuco: “Morrer antes de V. foi um ato de misericórdia que a Providência dispensou a Dona Carolina. A viúva sofre sempre mais, às vezes tragicamente”.

A tristeza de Machado de Assis faz recordar a conversa que tive com o pintor Murilo La Greca quando indaguei porque ele havia parado de pintar. E ele respondeu numa frase carregada de amargura: “Para mim, pintar é um ato de alegria, como posso pintar se estou triste? ” Referia-se à tristeza decorrente da morte da sua musa Sílvia, esposa, modelo e grande companheira de vida. Machado revelou igual consternação ou melancolia associando sempre a morte da esposa à “catástrofe” e ao “desastre”. Na carta de 20 de novembro de 1904, ele escreve: “Tudo me lembra a minha Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará. ”Pouco antes de morrer ele anota: "Não há vaga (na ABL) mas quem sabe não a darei eu? Estamos perante a convicção cristã de que a morte é apenas uma via ascendente. Cedo ou tarde iremos encontrar as pessoas que amamos.

Por tudo isso, Carol terá outros Natais comigo. Iremos cantar “Noite feliz”. Afinal, sinto-me muito viva, borbulhante e quase eterna. A imortalidade é a consciência sedenta de paz, dividida entre o desejo do absoluto e a convicção de que “apenas num instante” poderemos deixar de existir para viver numa outra esfera. Vivo a certeza de que ainda posso escapar da minha finitude biológica. Basta ingressar no universo alegórico do faz de conta para gozar os aprazíveis momentos da paixão em todas as suas manifestações. Você dirá, quem sabe, que eu sou uma infatigável escapista. Não contestarei. Prefiro sempre a fabulação, por isso gosto de escrever. A escrita me empurra para outras plagas desconhecidas e até irreais. O certo é que continuo rindo demasiado de mim, das coisas e do mundo. O Papa Francisco dizia que “o riso é contagioso e é mais fácil rir em conjunto do que sozinho”...O Natal é, afinal, o sorriso do filho de Deus. Espero que todas vivam essa certeza no dia 25.

Não esqueci, finalmente que ainda posso sonhar com amores pretérito se construir espaços afetuosos ou ternos para cada um deles. Talvez tenha me convertido numa criança insurgente ou amotinada, exibindo comportamentos desafiadores no exato instante de driblar a morte. Sou até capaz, nesses momentos, de me sentir interminável.

Curioso é que poucas vezes usei o verbo “arrepender” ou o substantivo “arrependimento”. Admito que sou capaz, apenas na parola, de perdoar as infâmias ou ofensas do outro. Dizem os amigos, por isso, que sou transigente, compreensiva e boa. Estão equivocados. Perdoar é um verbo perfeito, lindo e misericordioso. Perdoar exige o esquecimento e essa qualidade só Deus a possui. Por isso me considero apenas uma insignificante protagonista do perdão retórico considerando que jamais me alforriarei da memória. Uma criança me disse que gosta da vida porque a vida não sabe morrer. Estava quase certa. Seremos sempre eternos, mesmo em nossa pretensa finitude.

*Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciências jurídico-políticas

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