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Fé e Armas: um chamado à servidão

A Igreja e as Forças Armadas não devem erguer bandeiras partidárias. Elas não pertencem à direita ou à esquerda, não subscrevem partido A ou B.

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 06/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 06/12/2025 às 9:32

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No último domingo, a Igreja Católica iniciou o período do Advento, as quatro semanas que antecedem o Natal e que simbolizam um tempo de preparação espiritual, união, vigilância e esperança.

Como fiéis, somos convidados a refletir sobre a chegada do Menino Jesus e sobre os caminhos que Ele nos indica para compreender o mistério central da fé cristã.

Na comunidade que frequento, o sermão do Padre trouxe uma reflexão contundente sobre o ambiente contemporâneo que vem moldando nossas relações sociais.

Ele destacou que vivemos sob a ditadura do relativismo, uma lógica que ora autoriza um "tudo pode", ora impõe um "nada pode", conforme a conveniência subjetiva e particular.

Nesse terreno movediço, prosperam discursos ambíguos, justificativas improvisadas e uma perigosa tolerância com a ausência de responsabilidade individual.

O Sacerdote mencionou ainda outra marca de nosso tempo, a aceitação da banalidade do mal. Não identifiquei, ao longo da prédica, que essa referência tenha sido extraída da obra homônima de Hannah Arendt.

Contudo, seu eixo de argumentação nos serve ao momento. A filósofa demonstra que atrocidades podem ser cometidas não apenas por monstros excepcionais, mas, igualmente, por pessoas comuns que renunciam ao ato de pensar e se escondem sob o manto da burocracia estatal, da ideologia antolhada ou da opinião coletiva.

Em síntese, quando a reflexão interior é substituída pelo comportamento de manada, o mal encontra terreno fértil para prosperar.

O religioso também criticou o hábito contemporâneo de justificar comportamentos nocivos com base em desigualdades econômicas, falhas de governantes ou na crença, cada vez mais difundida, de que determinados grupos seriam inimputáveis.

Para ele, essa banalidade do mal produz uma comiseração que corrói silenciosamente o tecido comunitário, como se as circunstâncias bastassem para perdoar qualquer desvio, deslocando a responsabilidade da pessoa para abstrações coletivas.

A homilia avançou para um ponto crucial. A Igreja não é de direita nem de esquerda. Embora se reconheça conservadora em seus ritos e mensagem, não adota rótulos ideológicos como critério de acolhimento.

Em crítica direta à polarização que tomou conta do mundo e que no Brasil assume a força de um tsunami, o Reverendo destacou que a convivência fraterna exige romper cercas, reconstruir pontes e ultrapassar as trincheiras amorais que fragmentam comunidades.

Celebrar o Natal, disse ele, requer fortalecer a saúde espiritual e conviver com o diferente sem abdicar de princípios éticos e morais.

Após 45 anos de vida castrense, ainda identifico semelhanças entre as instituições da Fé e das Armas. Ambas desempenham papéis estruturantes na sociedade e ambas padecem e pecam quando se deixam capturar pelo relativismo, pela banalização do mal, pela polarização ou por agendas que não lhes pertencem.

As Forças Armadas, por exemplo, não podem relativizar hierarquia e disciplina, tampouco abdicar de valores e tradições. Quando um soldado diz "sim", é sim; quando diz "não", é não. Não pode justificar erros individuais pela obediência cega, pela rotina burocrática ou pela ausência de pensamento crítico. Para o cidadão em armas, pensar é parte inseparável do agir, pois somente a ele é delegado o direito de empregar a violência em nome da sociedade.

Assim como a Igreja, as Forças Armadas não devem erguer bandeiras partidárias. Elas não pertencem à direita ou à esquerda, não subscrevem partido A ou B.

O soldado, ao oferecer a própria vida ao serviço da Pátria, serve à Nação como um todo e não a uma parte dela. Seria moralmente inadmissível entregar-se a um lado e negar-se ao outro.

A neutralidade institucional não é escolha. É condição de legitimidade e imperativo de responsabilidade.

Igreja e Forças Armadas têm em comum a vocação de doar-se, uma ao Espírito e outra ao Estado. Quando permanecem fiéis a essa disposição, tornam-se pilares de equilíbrio e referências sociais.

Em um ambiente em que a polarização distorce responsabilidades e o relativismo corrói padrões éticos e morais, é essencial que Fé e Armas permaneçam ancoradas em seus valores seculares e devotadas à obrigação de servir, atributos que lhes conferem sentido e razão de existir.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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