Pressionado pela economia global, Trump afirma que ação no Irã é 'excursão curta'
Nesta segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que os países do G7 podem recorrer às suas reservas de petróleo de emergência
Clique aqui e escute a matéria
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 09, que a ação do país no Irã será uma "excursão curta" e que será finalizado muito rápido. Em uma discurso à base republicana, ele defendeu a necessidade de agir para "derrotar o mal", indicando que os iranianos estavam a duas semanas de possuir armas nucleares.
O presidente indicou que ainda não terminou a ação no país, mas apontou para uma série de danos à capacidade iraniana, como 80% de destruição nos locais que possuíam mísseis.
"Temos maior força militar do mundo, agora todos entendem", disse Trump, reforçando o "quão bons são nossos militares". Segundo ele, as ações no Irã e na Venezuela mostraram as capacidades militares do país, que "voltou a ser respeitado", segundo o presidente.
Trump apontou por várias vezes que o país vai bem economicamente citando desemprego e os recordes no mercado acionário. Segundo ele, a inflação não deverá ter grande impacto da "ação rápida" no Irã.
PREÇOS DO PETRÓLEO
A escalada das tensões no Oriente Médio, que levou o preço do petróleo a ultrapassar a barreira dos US$ 100 o barril, paralisou o mercado de diesel importado no Brasil. Diante do temor de que a Petrobras não repasse os preços internacionais dos derivados para o mercado interno, os importadores suspenderam as compras - uma vez que o preço a ser vendido aqui ficaria inviável -, informou o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araújo. O diesel importado responde por cerca de 30% do mercado interno.
"Desde o início do conflito não está chegando carga nova, o mercado está parado. O nosso diesel vem da Rússia e o problema é o preço, ninguém sabe se a Petrobras vai repassar esse aumento", diz Araújo, prevendo que os estoques no Brasil garantem o abastecimento pelos próximos 15 dias.
Procurada, a Petrobras não se manifestou até a publicação desta reportagem.
A defasagem do diesel vendido pela Petrobras no Brasil em relação ao praticado no mercado externo atingiu um novo recorde, de 85%, abrindo espaço para uma alta de R$ 2,74 por litro, o que teria impacto direto na inflação no Brasil. A estatal está há mais de 300 dias sem reajustar o diesel.
Já a Acelen, empresa privada que controla a Refinaria de Mataripe, na Bahia, detentora de 14% do mercado de combustíveis do País, somente em março já elevou o preço do diesel em 26%. Apesar do aumento, a defasagem de preços de Mataripe ainda é de 42%.
A insegurança tomou conta do setor, segundo uma pessoa que trabalha na área e falou sob condição de anonimato. Com os concorrentes - a Refinaria de Mataripe e a Ream, em Manaus - incapazes de ofertar volume suficiente, filas têm se formado nas refinarias da Petrobras. Segundo essa mesma pessoa, a situação não pode se prolongar, sob risco de desabastecimento no País.
No caso da gasolina, o cenário é menos grave porque apenas 10% do consumo depende de importação. De acordo com a Abicom, a defasagem da gasolina em relação ao mercado externo é de 49%. Isso significa que a Petrobras poderia reajustar o preço em R$ 1 22 por litro.
Aumentar a mistura de biodiesel para reduzir a demanda do diesel como já pediu a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), seria um "tiro no pé", avaliam pessoas do mercado, já que o biocombustível é mais caro. No caso da gasolina, o etanol também está com os preços em alta e uma mistura maior do que a atual (30%) também acabaria tendo impacto no preço.
Cotação internacional
O petróleo tipo Brent abriu a manhã da segunda-feira em torno dos US$ 120 o barril, recuando para mais perto dos US$ 100 ao longo do pregão.
Para Isabela Garcia, analista de inteligência de mercado da Stonex, não houve exatamente um único fator ao longo do fim de semana que justificasse essa alta em relação a sexta-feira. "O que ocorreu, na verdade, foi a consolidação das expectativas de um choque de oferta no mercado de petróleo", avalia.
Ela explica que a avaliação inicial era de que o conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã se resolveria rapidamente, o que não ocorreu. "Ao longo do fim de semana, ficou mais claro que a situação não está sendo resolvida. Os fluxos continuam interrompidos e os ataques à infraestrutura energética no Oriente Médio seguiram ocorrendo", diz.
Nesta segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que os países do G7 podem recorrer às suas reservas de petróleo de emergência em resposta à alta dos preços da energia, em linha com o que ocorreu em 2022, no início da guerra entre Rússia e Ucrânia.
"São medidas importantes e bem recebidas pelo mercado, mas a avaliação predominante é de que não serão suficientes para neutralizar totalmente o impacto do fechamento do Estreito de Ormuz", afirma Garcia.
A analista prevê que essas ações podem amenizar parte da pressão no curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural. E, quanto mais tempo os fluxos permanecerem limitados - com a navegação efetivamente interrompida -, maior será a dificuldade de compensar esse choque de oferta.
"Por isso, o petróleo continua encontrando espaço para valorização enquanto não houver uma articulação mais clara entre os países do Oriente Médio, o Irã e outros grandes produtores globais no sentido de repor o volume que deixou de chegar ao mercado desde o início do conflito, que agora já se aproxima de dez dias", avalia a analista, ressaltando que o cenário ainda não apresenta sinais de alívio no curto prazo, o que ajuda a explicar a valorização do petróleo neste início de semana.
MERCADOS
Já em queda firme em relação ao real ao longo da tarde, o dólar mergulhou no mercado doméstico na última hora de negócios desta segunda-feira, 9, com a melhora do apetite ao risco no exterior, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que a guerra contra o Irã está perto do fim.
Com mínima de 5,1601, o dólar à vista terminou o pregão em baixa de 1,52%, a R$ 5,1641 - menor valor de fechamento desde 27 de fevereiro (R$ 5,1340), antes dos ataques iniciais ao Irã.
Foi a segunda sessão consecutiva de forte queda da moeda norte-americana em relação ao real. A divisa ainda acumula alta de 0,59% nos seis primeiros pregões de março, após queda de 2,16%. No ano, o dólar apresenta desvalorização de 5,92%.
Em entrevista por telefone à rede de televisão CBS, Trump disse que os EUA estão "bem adiantados" na estimativa inicial de que o conflito contra o Irã seria encerrado em um período de quatro a cinco semanas. "Eu acredito que a guerra está bem completa. Eles não possuem marinha, comunicações ou Força Aérea", disse.
Principal termômetro do humor dos investidores em relação ao conflito no Oriente Médio, os preços do petróleo experimentaram oscilações agudas. Após encerrarem a sessão regular em alta de 4,3% (WTI) e 6,8% (Brent), inverteram o sinal e passaram a cair no pregão eletrônico. A despeito do refresco no fim do dia, a commodity ainda exibe ganho superior a 20% no mês e avança quase 50% no ano.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY, que operava em leve alta, também mudou de direção. Quando o mercado local de câmbio fechou, o Dollar Index recuava 0,12%, aos 98,865 pontos, com mínima aos 99,695 pontos.
O real já brilhava antes da mudança de humor lá fora, exibindo de longe o melhor desempenho entre as poucas divisas emergentes e de países exportadores de commodities. A avaliação é que a moeda brasileira era beneficiada pela mudança no patamar dos preços do petróleo com o conflito no Oriente Médio.
O economista Robin Brooks, Brookings Institute, destaca que o real apresentou nos últimos dois dias desempenho superior ao de todas as outras divisas emergentes. Segundo Brooks, que é ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), a dinâmica recente dos preços do petróleo representa um "choque positivo enorme" para o Brasil e outros exportadores da commodity.
"Esse comportamento tem relação com o que aconteceu após a invasão da Ucrânia pela Rússia. É um movimento similar nos termos de troca. É o momento ideal para o real", afirmou Brooks, em post na rede social 'X'.
Pela manhã, o dólar chegou a se aproximar de R$ 5,30, ao registrar máxima de R$ 5,2864. A depreciação do real se deu na esteira de um aumento expressivo da aversão ao risco no exterior
As cotações do petróleo se aproximaram de US$ 120 o barril diante de temores de um prolongamento da guerra, com manutenção do fechamento parcial do Estreito de Ormuz, após a escolha de Mojtaba Khamenei como líder supremo do Irã. Filho do aiatolá Ali Khamenei, morto por bombardeio conjunto dos EUA e de Israel ao Irã, Mojtaba é visto como parte da linha-dura do regime.
Antes das declarações de Trump de que o fim da guerra está próximo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse que não há espaço para discutir um cessar-fogo enquanto os ataques ao país continuarem. Mais cedo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a ofensiva militar contra o Irã tem como objetivo enfraquecer a capacidade militar de Teerã, especialmente o arsenal de mísseis balísticos.
O diretor de portfólio da Oryx Capital, Luiz Arthur Hotz Fioreze, ressalta que há uma defasagem temporal entre a alta do petróleo e o aumento das exportações brasileiras, dado que demora certo tempo para que os novos preços sejam "internalizados nos contratos de exportação importação" - e para que o aumento de receita em dólar se reflita no mercado cambial
"A correlação entre a valorização do petróleo e a do real não é instantânea. Pesquisas indicam que o efeito de choques no preço do petróleo sobre o câmbio pode apresentar um 'lag' de aproximadamente 2 a 3 semanas", afirma Fioreze.
Bolsa
Com petróleo em torno ou acima de US$ 100 por barril, as preocupações sobre a inflação global - e o correspondente efeito sobre a trajetória dos juros globais, a começar pelos dos EUA - permanecem sobre a mesa nesta semana que antecede a deliberação do Copom sobre a Selic, em 18 de março. Assim, mais uma vez, a princípio, o dia foi de cautela e de retração no apetite por risco, em reversão da tendência que se estabeleceu em meados de janeiro e foi interrompida pelo ataque ao Irã, iniciado em 28 de fevereiro por Estados Unidos e Israel.
Contudo, em direção ao fechamento da B3, novas declarações do presidente dos Estados Unidos foram recebidas com euforia no mercado global, que tirou o petróleo do positivo e o fez mergulhar em direção a uma queda de 9% nos contratos futuros do WTI, em Nova York. Em Nova York, os três índices de ações firmaram alta com os comentários, buscando máxima do dia para o Nasdaq. No fechamento, Dow Jones +0,50%, S&P 500 +0,83%, Nasdaq +1,38%.
HUNGRIA
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, anunciou nesta segunda-feira, 9, a imposição de um teto para os preços da gasolina e do diesel no país, medida que entrará em vigor à meia-noite no horário local em meio à disparada global do petróleo provocada pela guerra entre Irã e aliados ocidentais. Em vídeo divulgado no Facebook, Orbán afirmou que a decisão busca conter a pressão sobre os custos de energia para consumidores e empresas. "Para conter o aumento dos preços dos combustíveis, estamos introduzindo a partir da meia-noite de hoje um preço protegido para todas as famílias e empresas húngaras", disse o premiê.
Pelo novo mecanismo, o preço da gasolina será limitado a 595 forints (US$ 1,74) por litro, enquanto o diesel terá teto de 615 forints (US$ 1,80) por litro.
Segundo Orbán, a escalada das cotações internacionais já começou a afetar o mercado doméstico. "A explosão internacional dos preços do petróleo também chegou à Hungria", disse. O governo informou que o teto valerá apenas para veículos com placas e documentação húngaras. Para garantir o abastecimento, o país também pretende liberar parte de suas reservas de petróleo.
A medida ocorre em um momento de forte alta do petróleo nos mercados globais, com a guerra no Irã - agora em sua segunda semana - envolvendo países e infraestruturas centrais para a produção e o transporte de energia.
Mais cedo, Orbán também pressionou a União Europeia a suspender todas as sanções contra combustíveis fósseis russos, argumentando que as restrições agravam a disparada dos preços da energia no continente. A Hungria já havia adotado um teto semelhante para combustíveis em novembro de 2021, após a disparada de preços durante a pandemia de covid-19. A política foi abandonada cerca de um ano depois, em meio ao aumento do consumo e a problemas de abastecimento.