Recife lança ferramenta de inteligência artificial para identificar risco de violência contra mulheres
ClarIA analisa os dados da atenção básica e alerta profissionais de saúde sobre possíveis situações de violência
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A Prefeitura do Recife lançou, nesta segunda-feira (9), a ClarIA, uma ferramenta de inteligência artificial voltada à identificação precoce de mulheres em risco de violência e feminicídio atendidas na rede municipal de saúde.
A tecnologia passa a atuar na Atenção Básica e tem como objetivo apoiar profissionais na detecção de sinais que possam indicar situações de violência antes que os casos se agravem.
A iniciativa integra a política municipal de enfrentamento à violência de gênero e busca ampliar a capacidade da rede pública de saúde de reconhecer indícios de risco durante os atendimentos realizados nas unidades básicas.
A ferramenta analisa dados clínicos e históricos registrados nos sistemas de saúde. Quando identifica padrões compatíveis com possíveis situações de violência, a plataforma emite um alerta diretamente no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC e-SUS).
A notificação aparece durante o atendimento, permitindo que médicos, enfermeiros, dentistas e profissionais das equipes multidisciplinares direcionem o cuidado com maior atenção.
O nome ClarIA faz referência à Rede Clarissa, iniciativa municipal voltada ao atendimento e proteção de mulheres vítimas de violência, e simboliza a integração entre tecnologia e políticas públicas de acolhimento e defesa dos direitos das mulheres.
Desenvolvimento
A ferramenta foi desenvolvida em parceria entre a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Saúde, a organização internacional de saúde pública Vital Strategies e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Segundo o prefeito João Campos, o sistema foi criado a partir da análise de dados da própria rede municipal de saúde.
“Ao longo de cinco anos, analisamos dados de saúde de cerca de 900 mil mulheres atendidas na rede municipal. Esse estudo permitiu identificar padrões que costumam aparecer antes de casos de violência notificada ou até de feminicídio”, afirmou.
Para desenvolver o modelo de análise, os pesquisadores também utilizaram um recorte de aproximadamente 16 mil registros de mulheres vítimas de violência atendidas nas Unidades de Saúde da Família do Recife ao longo de dez anos.
Os dados foram cruzados com informações do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan), o que permitiu identificar padrões de adoecimento e de comportamento frequentemente associados a situações de violência.
Um dos achados do estudo chamou a atenção dos pesquisadores: muitas das mulheres que posteriormente sofreram agressões graves ou foram vítimas de feminicídio haviam procurado os serviços de saúde com maior frequência nos 90 dias anteriores ao episódio, muitas vezes relatando problemas relacionados à saúde mental.
A constatação reforça o papel da Atenção Básica como espaço estratégico para a identificação precoce de situações de risco e para a interrupção do ciclo de violência.
De acordo com a secretária de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque, a proposta é fortalecer a atuação da rede básica nesse processo. Atualmente, cerca de 75% das notificações de violência contra a mulher registradas no Sinan são feitas por prontos-socorros, enquanto apenas 1% ocorre na Atenção Básica.
Antes de ser ampliada para outras unidades, a ClarIA foi testada em um projeto-piloto no Distrito Sanitário I, envolvendo três Unidades de Saúde da Família — Santo Amaro III, Santa Terezinha e Pilar — além de uma equipe multidisciplinar. Ao todo, 62 profissionais foram capacitados para atuar na identificação e no acolhimento de possíveis vítimas.
A partir deste mês, a estratégia começa a ser expandida para 21 novas unidades de saúde, o que deve elevar para 541 o número de profissionais capacitados para o atendimento a mulheres em situação de violência, incluindo médicos, enfermeiros, dentistas e agentes comunitários de saúde, além de três equipes multidisciplinares.
Guia e suporte técnico para profissionais
Com a implementação da ClarIA, os profissionais da rede municipal também passam a contar com instrumentos técnicos de apoio ao atendimento. Um deles é o Guia Prático de Atenção às Mulheres em Situação de Violência no Recife, elaborado para orientar a atuação das equipes da rede pública.
O documento reúne informações sobre sinais clínicos, psicossomáticos e sociais que podem indicar situações de violência, inclusive quando não são relatadas diretamente pelas pacientes. O material também organiza os fluxos da rede de atenção à saúde do município e detalha os serviços especializados disponíveis para atendimento às vítimas.
Além disso, o guia traz orientações sobre a notificação compulsória de casos de violência, incluindo instruções para o preenchimento da ficha de notificação de violência interpessoal e autoprovocada.
O material está disponível em formato digital na biblioteca virtual da Escola de Saúde Pública do Recife, nas redes sociais da Secretaria de Saúde e também integrado ao próprio sistema de prontuário eletrônico utilizado nas unidades.
Os profissionais também poderão recorrer a teleconsultorias da Saúde Digital do Recife para esclarecer dúvidas durante o atendimento de casos suspeitos. O suporte será oferecido por médicos e enfermeiros capacitados, por meio de contato telefônico ou aplicativo de mensagens.
“A expectativa é colocar a tecnologia a serviço da segurança das mulheres, ampliando a identificação precoce e garantindo que os casos cheguem à rede de proteção”, disse o prefeito João Campos.
Com a adoção da ferramenta e das novas estratégias de apoio, a gestão municipal aposta na integração entre tecnologia, qualificação profissional e articulação da rede de proteção como forma de fortalecer o enfrentamento à violência contra a mulher e ampliar a capacidade de prevenção e acolhimento no sistema público de saúde.