Religião | Notícia

Paternidade com Jesus

A Doutrina Espírita esclarece que os vínculos familiares ultrapassam limites da existência presente e como espíritos imortais nos reencontramos

Por JC Publicado em 30/08/2026 às 0:00

Clique aqui e escute a matéria

Siga o JC no Google e acompanhe
tudo o que você precisa
Seguir no Google

GUSTAVO MACHADO


Em Os Miseráveis, publicado por Victor Hugo em 1862, há uma história que nos proporciona bela reflexão. Fantine, consumida pela miséria e pela doença, morre deixando órfã a pequena Cosette, então submetida a privações e maus-tratos pelos Thénardier. Jean Valjean, sem qualquer laço de sangue com a menina, assume o compromisso de encontrá-la e cuidar dela.


Ao resgatar Cosette, Valjean assume a responsabilidade por uma criança que até então lhe era estranha. Passa a protegê-la, educá-la e oferecer-lhe o afeto e a segurança que jamais conhecera. Entre os dois, constitui-se um vínculo com a profundidade própria da relação entre pai e filha.
E, se Valjean transforma a existência de Cosette, aquela menina também transforma a sua. O homem marcado pelo sofrimento e pela exclusão encontra, no cuidado cotidiano, uma nova experiência de amor e renúncia.


Victor Hugo nos oferece, assim, uma bela imagem da paternidade socioafetiva. Jean Valjean escolheu acolher Cosette, permaneceu ao seu lado e assumiu a responsabilidade de amá-la como filha. Tornou-se seu pai.


A Doutrina Espírita nos esclarece que os vínculos familiares ultrapassam os limites da existência presente. Somos espíritos imortais que nos reencontramos, sob diferentes experiências e condições, para aprender, progredir e, sobretudo, amar. Existem homens que participam da geração de uma vida e pouco conhecem da experiência de ser pai. Outros, sem vínculo de consanguinidade, acolhem a responsabilidade e a doçura da paternidade pela presença, pelo cuidado, pela renúncia e pelo amor.
Afinal, gerar um filho é um acontecimento importantíssimo da vida. Mas se tornar pai, no seu sentido mais genuíno do termo, é uma transformação da alma. E é preciso falar também sobre o nascimento desse pai.


Durante muito tempo, ensinou-se aos homens que ser forte significava esconder as próprias fragilidades. Muitos pais aprenderam a trabalhar, sustentar, proteger e resolver problemas. Poucos aprenderam que também poderiam admitir o medo, a insegurança, a angústia e a sensação de não estarem correspondendo à grandeza da missão recebida.


Reconhecer esses sentimentos integra caminho de aperfeiçoamento. À luz de Jesus, a verdadeira fortaleza também se encontra na disposição de transformar a si mesmo.


Não existe bula ou manual capaz de responder às perguntas que surgem quando outra vida passa a depender de nossas escolhas. Aprende-se a ser pai sendo pai: errando, acertando, recomeçando, pedindo perdão, perdoando-se e descobrindo, um dia de cada vez, que o amor também se educa pelo exemplo.


E penso que, sob a perspectiva espírita, há ainda algo de extraordinário nesse processo. Costumamos pensar que Deus nos confia filhos para que possamos educá-los. Isso é uma vertente. Ao confiar um espírito aos cuidados de um pai, a Providência Divina oferece também a esse homem uma preciosa oportunidade de crescimento moral.


Enquanto imaginamos estar formando nossos filhos, muitas vezes são eles que estão formando o pai que ainda estamos aprendendo a ser. A convivência ensina paciência, renúncia, responsabilidade, tolerância, perdão e recomeço. A paternidade se torna uma escola de aperfeiçoamento, na qual homens imperfeitos, dada a falibilidade humana, são chamados a crescer diariamente pelo amor.
Penso que o maior presente que um pai possa oferecer a um filho seja a presença de alguém que jamais desistiu de se tornar melhor, e isso porque ninguém termina de nascer pai. A cada conversa difícil, a cada abraço, a cada renúncia, a cada exemplo silencioso, a paternidade continua nascendo e acontecendo.


Neste mês dedicado aos pais, agradeço a Deus pela dádiva de viver a paternidade com Rafael e Letícia e estendo minha homenagem a todos os homens que abraçaram essa missão: aos pais biológicos, adotivos ou socioafetivos; aos que hoje carregam seus filhos no colo e aos que já os veem seguir os próprios caminhos; aos que acertam, erram, aprendem, recomeçam e, sobretudo, permanecem.


Gustavo Machado – trabalhador da Fraternidade Espírita Franscisco Peixoto Lins (Peixotinho).

Compartilhe

Tags

Imagem de JC

JC

editores@jc.com.br

Fundado em 1919, o Jornal do Commercio é referência na cobertura jornalística de Pernambuco, do Brasil e do mundo, com relevância e credibilidade.