A Vida que ainda não vivemos
Seguimos pela trazendo erros conhecidos e outros que permanecem no íntimo de cada um, mas ainda assim temos oportunidade recomeçar
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GUSTAVO MACHADO
Os Miseráveis, de Victor Hugo, é uma obra que fala da miséria material, das injustiças sociais e das contradições humanas. Mas fala, sobretudo, da possibilidade de transformação. É um livro que nos desperta reflexões em várias dimensões: social, humana, política, jurídica, espiritual, dentre outras. Seus personagens, Jean Valjean, Javert, Fantine, Cosette, Marius, Gavroche, o bispo Myriel etc., em algum momento da leitura, deixam de habitar as páginas e passam, de certa forma, a nos habitar, a nos representar.
Penso que todos carregamos um pouco de Jean Valjean e um pouco de Javert. Em alguns momentos, somos aquele que espera uma nova oportunidade. Em outros, somos quem acredita que o passado de alguém basta para definir quem essa pessoa será para sempre.
Jean Valjean deixara a prisão depois de anos de sofrimento, condenado por furtar um pedaço de pão. Carregava marcas que iam muito além das correntes. O mundo já havia decidido quem ele era. Restava-lhe sobreviver à desconfiança dos outros e à descrença em si mesmo, até encontrar o bispo Myriel, um homem que compreendia e vivia os ensinamentos de Jesus.
Movido novamente pela fome, Jean Valjean furtou as pratarias da casa episcopal. Preso e conduzido de volta ao bispo, tudo indicava que retornaria ao cárcere. O esperado era a condenação. Myriel, porém, escolheu outro caminho. Disse aos policiais que os objetos haviam sido um presente e, quando ficaram a sós, entregou também os castiçais, recomendando que os utilizasse para se tornar um novo homem.
Naquela noite, Jean Valjean, para além do perdão, recebeu uma nova oportunidade de olhar para si mesmo. O gesto do bispo Myriel alcançou um lugar onde nenhuma sentença seria capaz de chegar: a consciência.
Também nós seguimos pela vida trazendo erros conhecidos e outros que permanecem no íntimo de cada um. Ainda assim, todos recebemos, inúmeras vezes, a oportunidade de recomeçar. Deus nunca desiste de quem ainda pode aprender.
Em outra passagem, Victor Hugo escreveu: "Morrer não é nada; não viver é que é horrível." Li essa frase algumas vezes e compreendi que o autor não escrevia sobre a morte, mas sobre a vida.
Vivemos depressa. Fazemos muito. Corremos muito. Produzimos muito. Mesmo assim, persiste um vazio que nenhuma conquista material consegue preencher. Os dias passam sem que percebamos que, muitas vezes, sobrevivemos mais do que vivemos.
Jesus afirmou: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância". Durante algum tempo imaginei que essa abundância estivesse ligada à promessa de felicidade. Hoje compreendo de outro modo. Jesus veio nos ensinar o sentido da vida. Ensinou que viver é aprender a amar, servir, perdoar, recomeçar e permitir que Deus transforme o coração humano. Foi isso que aconteceu com Jean Valjean. Não foi o mundo que mudou. Sua história começou a mudar quando mudou o homem que existia dentro dele.
O Espiritismo nos esclarece que a vida não se resume ao intervalo entre o nascimento e a morte. Somos espíritos em permanente evolução. Cada existência representa uma nova oportunidade de corrigir caminhos, reparar escolhas e desenvolver virtudes que ainda não conseguimos viver plenamente. Deus não tem pressa. Educa-nos pelo tempo, pelas experiências e pelos encontros que a vida coloca diante de nós.
Por isso, nascer de novo começa muito antes de uma nova existência. Começa quando exercitamos o perdão. Quando o orgulho perde espaço para a humildade. Quando o egoísmo dá lugar ao serviço. Quando deixamos morrer, dentro de nós, aquilo que já não combina com o Evangelho de Jesus.
A vida que ainda não vivemos não está escondida em outro lugar, nem depende de um tempo futuro. Ela começa no instante em que permitimos que o amor ensinado por Jesus ocupe, pouco a pouco, o espaço antes reservado ao orgulho e ao egoísmo.
No fim, viver é chegar ao término da caminhada trazendo menos pesos na alma e mais luz no coração do que quando iniciamos a viagem.
Gustavo Machado é trabalhador da Fraternidade Espírita Francisco Peixoto Lins (Peixotinho)