O Caminho de Volta para Casa
Vivemos numa sociedade que nos ensinou a ocupar todos os espaços com algum tipo de ruído e se existe silêncio ligamos uma música ou pegamos o celular
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SILVIA VASCONCELOS
Experimente fazer um pequeno teste. Desligue a televisão. Silencie o celular. Afaste o computador. Sente-se em uma cadeira, sem um livro, sem música, sem distrações. Agora permaneça ali durante apenas cinco minutos.
Cinco minutos. Parece pouco. Mas, para muitas pessoas, será uma eternidade.
Em poucos segundos, a mente começa a procurar alguma fuga. Lembramos de uma mensagem que ainda não respondemos, da roupa na máquina, da conta que vence amanhã, da notícia que precisamos ler. Qualquer coisa parece mais urgente do que permanecer conosco.
Será coincidência? Acredito que não. Vivemos em uma sociedade que nos ensinou a ocupar todos os espaços com algum tipo de ruído. Se existe silêncio, ligamos uma música. Se existe espera, pegamos o celular. Se existe tristeza, procuramos uma distração. Se existe vazio, tentamos preenchê-lo imediatamente. Estamos cada vez mais conectados ao mundo e, ao mesmo tempo, mais distantes da própria alma.
Permanecer em silêncio é um dos exercícios mais exigentes que existem. Quando o barulho termina, começamos a ouvir aquilo que passamos o dia inteiro tentando não escutar: as preocupações, os arrependimentos, os incômodos da consciência que pedem acolhimento, os medos, as saudades, as perguntas sem resposta, as feridas que continuam esperando um olhar.
Existe uma imagem que gosto de imaginar. Nossa vida é como uma casa. Recebemos visitas todos os dias: responsabilidades, tarefas, notícias, preocupações, expectativas dos outros. Mas existe um morador que quase nunca encontra o dono da casa: nós mesmos. Passamos o dia cuidando de tudo, menos daquele que habita o lado de dentro.
No livro Vida Feliz, Joanna de Ângelis nos convida à serenidade, não como uma emoção passageira, mas como uma disciplina da alma. Ela nasce quando diminuímos a velocidade suficiente para perceber quem somos enquanto a vida acontece.
Isso exige coragem. Permanecer alguns minutos consigo mesmo pode revelar tanto as dores quanto as riquezas que carregamos. Mas também pode nos fazer reencontrar um lugar que parecia esquecido: um espaço interior onde nenhuma notícia chega, nenhuma cobrança entra e nenhuma comparação faz sentido.
É justamente nesse espaço que a oração deixa de ser apenas um conjunto de palavras. Transforma-se em encontro, em um diálogo silencioso com Deus. Sua voz jamais deixou de ecoar; nós é que, muitas vezes, perdemos o hábito do silêncio necessário para escutá-Lo. Emmanuel sintetiza essa experiência ao afirmar: "A vontade que ora, tange o coração que sente, produzindo reflexos iluminativos através dos quais o espírito recolhe em silêncio, sob a forma de inspiração e socorro íntimo, o influxo dos Mensageiros Divinos." O silêncio, então, deixa de ser ausência. Torna-se o espaço onde voltamos a ouvir aquilo que o coração agitado já não consegue perceber.
Há mais de dois mil anos, Sócrates deixou um convite que continua atual: "Conhece-te a ti mesmo." Séculos depois, Santo Agostinho escreveu: "Não saias para fora; entra em ti mesmo. No homem interior habita a verdade." Blaise Pascal observou que “toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saber permanecer em repouso num quarto.” Clarice Lispector transformou essa experiência em oração ao escrever: "Que minha solidão me sirva de companhia." Em tempos e linguagens diferentes, todos parecem apontar para a mesma direção: o caminho da paz passa, inevitavelmente, pelo encontro com a própria consciência.
O mundo moderno nos transformou em viajantes permanentes. Estamos sempre indo para algum lugar: para a próxima tarefa, a próxima notícia, o próximo compromisso, a próxima preocupação. A oração não nos leva a um Deus distante. Ela nos desperta para a presença de Deus que sempre esteve conosco. É uma viagem de volta para casa.
Deus está e sempre esteve presente. Nós é que, muitas vezes, perdemos o hábito do silêncio necessário para percebê-Lo.. Porque a serenidade não nasce quando o mundo faz silêncio, mas quando o coração encontra espaço para ouvir.
O maior desafio não é reservar cinco minutos para Deus e sim reservar cinco minutos para estar verdadeiramente presente. E, nesse silêncio, descobrir que Ele sempre esteve ali, esperando apenas que voltássemos para casa.
Silvia Vasconcelos – Psicóloga Clínica, com abordagem junguiana. Palestrante espírita e voluntária da Fraternidade Espírita Peixotinho.