Religião | Notícia

O Suicídio Atinge o Clero

Nessa luta contra o suicídio é salutar um ambiente de escuta e de ajuda, pois suaviza muito a dor do padre que esteve na antessala do suicídio

Por JC Publicado em 05/07/2026 às 0:00

Clique aqui e escute a matéria

PADRE BIU DE ARRUDA

Não há aqui, a intenção de explicar o fenômeno do suicídio, uma vez que é um fato multifacetário. Ora, é de natureza genética; ora, tem como causa o alcoolismo, ora, o gatilho provocador é uma depressão profunda etc.; mas tão somente deixar claro que o suicídio já bateu à porta do clero e isso é uma realidade muito triste para a Igreja.


Uma situação em que não há solução a curto prazo e que os senhores bispos não têm uma receita pronta para estancar essa sangria no clero. Sem esquecer que o suicídio é um ato carregado de dor, preconceito, sentimento ambíguo etc. É um grande mistério, considerando que, por natureza, o ser humano tem o instinto natural de conservação da própria vida.


O suicídio no clero é por demais devastador, pois quando um padre tolhe a própria vida, além de deixar um tremendo vazio no clero, causa muitas interrogações. Os pares questionam; por vezes, questionamentos plausíveis. Afinal, de humano, o padre é um homem do sagrado, sabedor do valor da vida na sua sacralidade, desde a sua concepção ao declínio natural. Logo, é ciente do que seja a vida como um dom de Deus. Talvez alguns não saibam, contudo, o suicídio no clero não é fato incipiente. Para tanto, basta lembrar que na Revolução dos Padres de 1817, sem suportarem a pressão da força imperial, dois padres praticaram suicídio. O padre João Ribeiro, aquele que idealizou e confeccionou a bandeira de Pernambuco, e o padre Antônio José.


Quiçá, não seja do conhecimento de todos, no entanto, o sacramento da Ordem não anula a natureza humana. Depois de ser ordenado, permanece o ser humano de antes, com toda a sua história atávica. Não se pode prescindir desse dado em hipótese alguma. Na missão, o padre cansa, fica angustiado, às vezes, cobra-se demasiadamente, na ilusão de que seja uma pessoa invencível, e, por isso, adoece. Na maioria das vezes, o sofrimento é latente. Talvez, não foi educado para pedir socorro, fechando-se assim, num pseudo casulo. Urge despertar essa consciência no clero de que o melhor caminho é pedir auxílio, estendendo as mãos. Sabemos, porém, que ação dessa natureza não é fácil para quem pensa que, porque é padre, pode tudo.


Quando um padre pratica suicídio, causa uma dor muito grande entre os pares. E lamentavelmente, nos tempos hodiernos, o clero não tem tempo nem de enxugar as lágrimas pela despedida de um padre; e chega a notícia de que outro padre praticou suicídio. É como se fosse um tsunami; uma estalactite que não para de incomodar, um processo incessante de luto. E o suicídio no clero, também não escolhe idade; contudo, na maioria das vezes, é de perceber que atinge os jovens sacerdotes, lamentavelmente.


É de acreditar que o melhor caminho para suavizar um pouco essa triste situação no clero, seja a prevenção. Sim, prevenir. Afinal, “é preferível prevenir a remediar”. E a prevenção é possível. Para tanto, basta criar no clero programas permanentes de acolhimento e valor reconhecendo que o padre não é um super-homem. Uma Pastoral Presbiteral pujante é uma mão na roda. Um favorecimento a um ambiente de escuta para pedir ajuda, suaviza muito a dor do padre que já frequentou a antessala do suicídio várias vezes. Nessa luta contra o suicídio no clero, é mister que a comunidade, onde ele exerce a missão, seja aquecedora e não sugadora. Urge cuidar de quem cuida de nós.


Pe. Biu de Arruda - AOR é pároco da PAróquia de SAnta uzia - Estância

Compartilhe

Tags