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Humildade com Jesus

Ganhar o mundo, não é apenas possuir bens ou poder, mas sobretudo como e a forma de adquiri-los, organizar a vida a partir do ego

Por JC Publicado em 22/02/2026 às 0:00

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GUSTAVO MACHADO


“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mateus 16:26; Marcos 8:36) A pergunta de Jesus enseja uma reflexão e um ensinamento profundos. Atravessa os séculos porque continua atual. Vivemos em uma cultura que celebra demasiadamente o sucesso, a ascensão, o acúmulo e o reconhecimento, muitas vezes sem indagar o preço interior dessa conquista. O mundo aplaude quem chega ao topo, mas raramente se interessa pelo que foi deixado pelo caminho e como foi percorrida essa trajetória: valores, vínculos, coerência, paz de consciência.


Ganhar o mundo, aqui, não é apenas possuir bens ou poder, mas, sobretudo, o como e a forma de adquiri-los. É organizar a vida a partir do ego, da necessidade de controle, do orgulho travestido de mérito, sem se importar com a maneira como essa construção se estabelece, se passa por cima de outrem e quais meios são lançados. É vencer por fora enquanto se apequena por dentro. É construir uma biografia admirável aos olhos alheios e, ao mesmo tempo, um vazio silencioso no íntimo da consciência.
Por isso, quando Jesus afirma: “O meu Reino não é deste mundo” (João 18:36), Ele não está negando simplesmente a vida material, nem propondo uma fuga da realidade. Está dizendo algo mais profundo: o Reino de Deus não se organiza pela lógica do poder, da força ou da vaidade, mas por uma ordem moral que começa no coração.


Essa lógica se torna concreta no episódio narrado por João (13:1-17), quando Jesus, durante a Última Ceia, levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha e lava os pés dos discípulos. Um gesto simples e intensamente “subversivo”. Lavar pés era tarefa de escravizados, não de mestres e muito menos de alguém reconhecido como Senhor. Ali, Jesus não apenas ensina. Ele vive o ensinamento: “Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (João 13:14-15). Um gesto que nos toca mais fundo do que parece, porquanto desmonta a estrutura íntima do orgulho humano.


A grandeza, no Reino de Deus, não está em ser servido, mas em servir conscientemente. Não está no lugar que ocupamos, mas na disposição e na forma com que nos colocamos nesse lugar à disposição do outro.
À luz do Espiritismo, esse ensinamento se apresenta como um convite à reforma interior. O orgulho e o egoísmo (O Livro dos Espíritos – questão 785) são compreendidos como entraves evolutivos, sombras do ego que nos mantêm presos a ilusões transitórias. A verdadeira ascensão do espírito não ocorre pelo mero destaque social, mas pela transformação moral. Não pelo aplauso externo, mas pela coerência íntima.
Servir, nesse contexto, não é humilhação. É libertação. É sair do centro narcísico do “eu” para reconhecer o outro como semelhante em dignidade e essência espiritual. É compreender que toda autoridade legítima é, antes de tudo, responsabilidade. E que o poder pelo poder, o poder que não se converte em cuidado, em atitudes nobres e em real propósito de transformação pessoal e auxílio ao próximo, se esvazia de sentido.


Jesus não propõe um Reino distante, restrito apenas ao pós-morte do corpo físico. Ele inaugura um Reino possível na Terra, aqui e agora, toda vez que alguém escolhe a humildade em vez da vaidade, o amor em vez da disputa, o serviço em vez da dominação. Um Reino que começa pequeno, invisível aos olhos do mundo e, muitas vezes, despercebido, mas imenso aos olhos da consciência e de Deus.


No fim, a pergunta permaneça ecoando: de que vale conquistar tudo fora, se perdemos a nós mesmos por dentro? O Cristo, portanto, não nos chama a abandonar o mundo, mas a não nos perdermos nele. A viver nele sem sermos dele e sem estarmos presos às mazelas morais, frutos do orgulho e do egoísmo. A lembrar que o verdadeiro Reino não se mede por títulos, cargos ou conquistas, mas pela capacidade de amar, servir e permanecer fiel à própria alma e à parcela de essência divina que habita em nós.


E, silenciosamente e com amorosidade, Jesus continua lavando nossos pés. E esperando que um dia aprendamos, enfim, a fazer o mesmo.
Gustavo Machado – trabalhador da Fraternidade Espírita Franscisco Peixoto Lins (Peixotinho).

 

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