Mundo doente?
Há desarrumação no mundo, há guerras gestos de intolerância, violência de todo matiz produzindo relações frágeis e um vazio atravessa as pessoas
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SILVIA VASCONCELOS
“O mundo está doente” – denuncia um ‘arauto’ do fim do mundo, alertando a multidão que se agita no ir e vir da cidade grande. Um momento, Senhor, não se agite tanto, não se precipite. Isso é uma denúncia, uma opinião, um diagnóstico ou uma conclusão precipitada?
Há uma desarrumação no mundo, isso parece evidente. Há guerras sem fim (e sem princípios que a justifiquem), gestos de intolerância, violência de todo matiz produzindo relações frágeis. Um vazio atravessa pessoas de todas as idades.
Não seria mais justo, então, que admitíssemos que algo terá saído do eixo natural, como as conhecidas enxurradas de verão após prolongada e surpreendente chuva?
A compreensão que temos do Universo é que um Criador de sabedoria infinita delegou ao homem – também Sua criação – a tarefa de construir a convivência entre irmãos da mesma origem, que compõem a família humana, a surpreendente Humanidade. Não seria provável que o homem se tenha afastado de si mesmo?
A propósito, pensadores contemporâneos nos instigam a rever a ideia de um mundo em colapso absoluto. Steven Pinker, Psicólogo e cientista cognitivo, em sua obra O Novo Iluminismo, informa que, apesar desta constante sensação de crise, nunca houve tantos avanços em saúde, longevidade, redução da violência e acesso ao conhecimento, o progresso humano é real, ainda que invisível para uma mente treinada a focar apenas no que dá errado.
À luz dessa verdade relatada pelo cientista, devemos admitir que nosso tempo é um tempo de excessos. Excesso de estímulos, cobranças e informações. Excesso de pressa, imediatismo. Podemos admitir que estamos em falta conosco, falta-nos essa intimidade fundamental do homem consigo mesmo. Conhecemos o mundo, mas desconhecemos a alma. Estamos nos afastando das emoções, silenciamos dores.
Essa seria a razão de que o autoconhecimento deixa de ser um artigo de luxo ou vaidade e torna-se caminho de cura. Só estaremos libertos quando estivermos dispostos a olhar para dentro, compreender nossas sombras e integrar nossas experiências. Não há saúde emocional nem espiritual sem esse encontro honesto com o próprio mundo interno. Como aprendemos com Drummond, a viagem mais perigosa do homem é para dentro de si mesmo.
Sabemos que é impossível olharmos para dentro de nós sem a coragem necessária. Voltando a Drummond, verificamos que ele qualifica a viagem interior como “dangerosíssima”. Por quê? Porque implica em reconhecermos nossas fragilidades, aceitando que nem tudo em nós está resolvido. Mesmo sendo difícil, é preciso admitirmos que a esperança essencial será fruto dessa corajosa viagem. Quando nos reconciliamos conosco, passamos a agir no mundo de forma mais consciente, compassiva e responsável.
Com base nessas reflexões, chegamos à conclusão de que talvez o mundo não esteja doente. Ele pode estar apenas espelhando o quanto nos afastamos de nós mesmos. Assim, através desse olhar, passamos a entender que o mundo aguarda, silenciosamente ou não, o nosso retorno ao essencial.
É aí que se revela o verdadeiro resgate da vida humana. A encarnação tem um propósito claro: mais do que vencer as tentações do plano físico — que são apenas o começo —, somos chamados a aprender e a amadurecer, construindo a autonomia que sustenta a vida plena.
Silvia Vasconcelos é psicóloga clínica, com formação em Psicologia Analítica Junguiana, palestrante espírita e voluntária da Fraternidade Espírita Peixotinho.