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Endividamento elevado exige planejamento para evitar ressaca financeira após o Carnaval

Com orçamento pressionado no início do ano, especialistas alertam para gastos subestimados na folia, enquanto comércio projeta alta nas vendas

Por Ryann Albuquerque Publicado em 10/02/2026 às 16:52

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O Carnaval chega como um dos períodos mais aguardados do ano, mas também como um teste para o equilíbrio financeiro das famílias brasileiras. Em um cenário de endividamento ainda elevado, os dias de festa podem deixar efeitos que se estendem bem além da Quarta-feira de Cinzas.

Em janeiro de 2026, 76,1% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Do total, 29,1% tinham contas em atraso, o que reduz a margem para absorver despesas extras sem comprometer o orçamento dos meses seguintes.

O momento do calendário contribui para a pressão no bolso. O início do ano concentra gastos obrigatórios, como matrícula e material escolar, além do pagamento de tributos como IPTU e IPVA, que costumam consumir parte significativa da renda das famílias.

“O Carnaval ocorre em um período de forte pressão financeira. Esses compromissos reduzem a renda disponível justamente quando há mais estímulo ao consumo com lazer e eventos”, explicou o economista Rafael Lima, da Fecomércio-PE.

Gastos invisíveis da folia

Entre os principais vilões do orçamento carnavalesco estão despesas que, muitas vezes, passam despercebidas no planejamento inicial. Transporte e alimentação figuram no topo da lista.

“Corridas por aplicativos em horários atípicos e em áreas de grande concentração de público tendem a ter tarifas mais elevadas. Já a alimentação fora de casa, especialmente em eventos e pontos improvisados, costuma ter preços acima do habitual”, afirmou Lima.

Embora o consumo durante o Carnaval seja, em geral, mais associado a pagamentos à vista, o economista alerta para o risco de desorganização financeira mesmo sem o uso intensivo do crédito. “Quando não há um limite pré-definido de gastos, o consumidor perde o controle e acaba comprometendo o orçamento do pós-Carnaval”, disse.

A orientação, segundo ele, é estabelecer previamente quanto pode ser gasto com a folia. “O ideal é calcular a renda mensal líquida, após as despesas obrigatórias, e destinar ao lazer uma parcela compatível com a realidade da família. Em geral, recomenda-se até 10% da renda para esse tipo de gasto.”

Na prática, o planejamento aparece como estratégia para evitar aperto financeiro. A estudante Manuela Serpa afirmou que não tem o hábito de fazer um planejamento financeiro amplo, mas estabelece um limite específico para o Carnaval.

“Eu sempre defino um orçamento máximo e organizo minhas fantasias a partir disso. Como costumo ir só para Carnaval de rua, acabo não gastando com camarote ou abadá, o que ajuda a manter o controle”, relatou.

Ela também aposta em estratégias simples para economizar durante a folia. “A gente costuma levar as próprias bebidas, com mochila térmica e até sacolé de fruta. Isso faz muita diferença, porque evita gastar com bebida mais cara na rua."

Para Manuela, o segredo está em saber, com antecedência, quanto pode gastar. “Assim eu já conto com esse valor no orçamento do mês e evito qualquer aperreio depois.”

Planejamento como regra para atravessar a festa

A psicóloga Suellen Soares Aleixo de Oliveira diz que o planejamento antecipado é essencial para evitar endividamento no Carnaval. “Eu me planejo desde o Carnaval passado. Quando acaba um, já começo a pensar no próximo. Vou comprando aos poucos, fora de época, porque é mais barato e evita gastar tudo de uma vez”, contou.

Segundo ela, a organização também ajuda a evitar gastos por impulso. “Eu vou para a cidade com uma lista do que realmente preciso comprar. Isso evita perder dinheiro e tempo”, pontuou.

Suellen conta ainda que já deixou de ir a eventos fechados por considerar os valores incompatíveis com o orçamento. “Tem shows que cobram mais de mil reais e, para mim, não faz sentido. Prefiro o Carnaval de rua, que acaba sendo mais acessível.”

Para o economista Rafael Lima, esse tipo de postura é decisivo, sobretudo para quem já está endividado. “O principal cuidado é evitar novas dívidas e priorizar compromissos já assumidos”, afirmou.

Caso os gastos ultrapassem o previsto, a recomendação é adotar medidas de contenção logo após o Carnaval, com redução de despesas não essenciais e reorganização do orçamento doméstico. “Registrar os gastos, mesmo que de forma simples, ajuda a retomar o controle financeiro.”

No meio da alegria dos blocos e do frevo, o desafio do folião é encontrar o equilíbrio entre aproveitar a festa e manter as finanças em ordem para que a única lembrança do Carnaval seja a folia, e não a conta a pagar.

JC IMAGEM
Veja dicas para um Carnaval seguro - JC IMAGEM

Comércio aposta na festa para aquecer as vendas

Enquanto o consumidor precisa redobrar a atenção para evitar endividamento, o comércio do Recife vê no Carnaval uma oportunidade de aquecimento dos negócios.

De acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL Recife), a expectativa é que o período movimente as vendas entre 5% e 8% neste ano, em comparação com o mesmo intervalo de 2025.

O presidente da entidade, Fred Leal, destaca o papel do Centro do Recife, que atende desde foliões em busca de fantasias e adereços até empreendedores informais, agremiações carnavalescas e empresas que investem na decoração de ambientes.

“Quem quer economizar e se preparar para o Carnaval encontra no Centro uma grande variedade de produtos”, afirmou.

Anaís Coelho e Aisha Vitória/JC Imagem
Lojas e artigos de carnaval - Anaís Coelho e Aisha Vitória/JC Imagem

Entre os segmentos mais procurados estão confecções, calçados, cosméticos, fantasias, acessórios, artigos para decoração, além de alimentação, bebidas e embalagens.

Empresas do setor de aviamentos e tecidos estimam crescimento de até 30% nas vendas no período pré-carnavalesco, impulsionadas pela procura por itens com brilho, como glitter, paetês e lantejoulas. Já lojas especializadas em eventos projetam alta superior a 35% na venda de bebidas e petiscos.

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