Jovens trabalham mais do que se diz e ocupam vagas, mas recebem menos
Dados do Caged e da PNAD mostram jovens no centro das contratações; desafio está na qualidade das vagas e na progressão profissional
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A desconfiança em relação aos jovens e ao trabalho não é nova. Na Grécia Antiga, Aristóteles já descrevia a juventude como impetuosa e pouco afeita à disciplina. Ao longo dos séculos, esse julgamento se repetiu: cada geração que chega ao mercado é vista, pela anterior, como menos disposta ao esforço e menos comprometida com o trabalho.
No século XX, os baby boomers foram associados à ruptura; a geração X, ao individualismo; os millennials, à impaciência. Agora, a geração Z – formada por jovens nascidos, em geral, entre 1997 e 2012, que cresceram em meio à instabilidade econômica, à digitalização do trabalho e à precarização das relações formais – passou a ser apontada como uma geração que “foge do emprego” e rejeita o mercado tradicional.
Os dados oficiais, no entanto, desmontam essa narrativa.
Os números mostram quem está ocupando as vagas
O mercado de trabalho formal brasileiro manteve trajetória positiva nos últimos anos. Em 2023, o país fechou o ano com saldo de 1,45 milhão de empregos com carteira assinada. Em 2024, o número subiu para cerca de 1,69 milhão, segundo o Novo Caged. Já em 2025, após um início mais aquecido, o mercado entrou em um período de estabilidade em patamar elevado, com admissões mensais oscilando entre 2,25 e 2,30 milhões até outubro.
Mais relevante do que o volume de vagas é o perfil de quem está sendo contratado. Dados por faixa etária mostram que jovens entre 18 e 24 anos concentram a maior parte do saldo positivo de empregos formais nos últimos anos. Em termos práticos, são eles que sustentam a renovação da força de trabalho no país.
Essa leitura é reforçada pelo economista Edgard Leonardo, que analisa o comportamento recente do mercado. Para ele, o ciclo aponta uma recuperação rápida no fim de 2024, seguida de acomodação.
“Após o pico em fevereiro, as admissões recuaram para cerca de 2,26 milhões em março e desde então oscilaram até outubro. Isso mostra estabilidade em nível elevado”, explica.
Segundo Edgard, esse movimento não indica retração do trabalho, mas mudança de ritmo. “O mercado continua gerando vínculos formais, mesmo que sem crescimento acelerado”, afirma.
Juventude empregada, mas em postos de entrada e baixa remuneração
A predominância de jovens no saldo de empregos é positiva, mas carrega alertas importantes. De acordo com Edgard Leonardo, a maior parte dessas vagas está concentrada em postos iniciais da hierarquia ocupacional, com salários de admissão inferiores aos de demissão e exigência, em geral, de ensino médio completo.
Essas posições incluem funções operacionais, administrativas básicas, comércio, serviços e apoio – segmentos que historicamente apresentam menor remuneração média e alta rotatividade. O dado ajuda a explicar por que, embora empregados, muitos jovens seguem com dificuldade para planejamento financeiro e progressão profissional.
“A absorção de jovens é positiva para a economia e para a previdência, mas levanta questionamentos sobre a qualidade dessas oportunidades”, avalia o economista. Para ele, o risco é naturalizar um modelo em que a juventude entra no mercado, mas encontra poucas chances reais de ascensão.
Segurança e direitos ainda pesam na busca pelo emprego formal
A estudante do curso de Estudos de Mídias da UFPE, Julia Fernanda, de 23 anos, atua em diferentes frentes de trabalho informal e por projeto. Para ela, o emprego formal segue sendo referência de estabilidade, sobretudo diante da imprevisibilidade do trabalho por demanda.
“As minhas expectativas em relação ao mercado de trabalho formal vêm muito de conseguir me sustentar com um pouco mais de garantia e segurança”, relata.
Sustentando-se por meio de freelances e bolsa de estágio, Julia vê na carteira assinada o acesso a direitos básicos. “Vejo no mercado formal uma alternativa de me sentir mais segura, com um salário regido pela CLT, passagem e outros direitos que hoje não me contemplam”, afirma.
A formalização, portanto, existe, mas nem sempre se traduz em estabilidade suficiente para o planejamento de médio e longo prazo.
Trabalho, estudo e um conflito estrutural
Outro ponto recorrente na experiência da juventude é a dificuldade de conciliar trabalho e formação. Julia cursa a faculdade no turno da manhã e destaca que o horário é hoje o principal critério na busca por emprego. “Preciso conciliar qualquer serviço com a faculdade. Um horário flexível é, atualmente, a única alternativa para mim, já que não penso em largar o curso”, diz.
Essa limitação não expressa falta de interesse pelo trabalho, mas o esforço de permanecer no sistema educacional enquanto se mantém financeiramente – algo historicamente apontado como desejável para o desenvolvimento do país.
Ainda assim, segundo a estudante, o mercado formal mantém lógicas rígidas. “Há trabalhos que poderiam ser híbridos, mas exigem presença. Falta abertura para sugestões”, observa.
“Evitar trabalho” ou reivindicar direitos?
A ideia de que jovens evitam trabalhar aparece com frequência no discurso empresarial e nas redes sociais. Julia diz já ter ouvido esse tipo de comentário e acredita que ele nasce de uma leitura distorcida. “Nossa geração tem uma conexão maior com informação e com direitos. Muitos contratantes confundem reivindicar direitos, como sair no horário, com não querer trabalhar”, afirma.
Ela destaca ainda que a possibilidade de “evitar trabalho” não é uma escolha real para a maioria. “Só é possível evitar trabalho se você vive uma realidade abastada. Caso contrário, não tem como”, diz.
Essa percepção encontra respaldo nos dados da PNAD Contínua. Levantamentos do IBGE mostram que, entre jovens de 18 a 24 anos, a taxa de informalidade varia entre 38% e 40%, percentual bem superior à média da população ocupada no país, que oscila entre 24% e 26%.
Mesmo quando estão trabalhando, os jovens permanecem mais expostos a vínculos frágeis, temporários ou sem carteira assinada, além de apresentarem maior rotatividade no emprego e menor tempo médio de permanência. Esse cenário ajuda a explicar por que a entrada no mercado ocorre, muitas vezes, sem garantias de estabilidade ou de progressão profissional no curto e médio prazo.
Entre o emprego formal e a lógica dos projetos
Diante desse cenário, o trabalho por projeto aparece como alternativa concreta, não por escolha ideológica, mas por adaptação. Julia relata que tem considerado investir mais no trabalho freelance na área de comunicação.
“Sempre fui uma pessoa do freela. Hoje penso em investir mais nisso, comprar equipamentos e tornar isso uma forma mais certa de ganhar dinheiro”, explica.
Ela observa que essa dinâmica também parte das empresas. “Muitos contratantes optam por freela por demanda ou para não sustentar um funcionário nas normas legais. O boom das pejotizações mostra isso”, avalia.
Para Edgard Leonardo, o movimento reforça a necessidade de políticas públicas voltadas não apenas à geração de vagas, mas à qualidade dos postos de trabalho, com investimento em capacitação e estímulo à progressão profissional.
Expectativas frustradas e entrada difícil no mercado
A experiência do estudante de Engenharia da Computação, Renan Humberto, de 21 anos, ajuda a completar o quadro. Tentando se inserir no mercado, ele afirma buscar estabilidade e crescimento. “Minhas expectativas são de conseguir uma oportunidade que proporcione crescimento profissional, estabilidade financeira e desenvolvimento, com planos de carreira e treinamentos”, relata.
Na prática, porém, ele percebe barreiras logo na entrada. Atuando na área de tecnologia, Renan diz que muitas vagas exigem competências elevadas desde o início. “As oportunidades são muito disputadas e pedem habilidades muito acima para quem está começando agora”, afirma.
Diferentemente de Julia, Renan não vê o trabalho informal como alternativa. “Nunca tive interesse em atuar nessa área”, diz. Ainda assim, sua fala reforça um ponto central: o problema não é a falta de disposição para trabalhar, mas o descompasso entre exigências e oportunidades reais.
Pernambuco segue o padrão nacional
No recorte estadual, Pernambuco confirma, e em alguns pontos aprofunda, a tendência observada no país. O estado fechou 2023 com saldo positivo de 51,5 mil vagas formais e acumulou, até outubro de 2025, 72.267 novos postos de trabalho com carteira assinada, segundo o Novo Caged.
Os jovens de 18 a 24 anos lideram esse movimento. Apenas em setembro e outubro deste ano, a faixa etária respondeu por 11.002 novas vagas, concentradas principalmente nos setores de comércio, serviços e atividades administrativas – áreas que reúnem grande parte das contratações iniciais, mas também apresentam maior rotatividade e remuneração mais baixa.
Esse perfil ajuda a explicar por que, mesmo diante de números positivos, a percepção de instabilidade persiste. De acordo com a PNAD Contínua do IBGE, o rendimento médio mensal dos ocupados em Pernambuco foi de R$ 2.221 em 2024, enquanto entre jovens de até 24 anos os valores ficam significativamente abaixo dessa média, refletindo a concentração em postos de entrada.
O conjunto dos dados desmonta a narrativa de que a juventude se afastou do trabalho. Jovens ocupam vagas, sustentam o saldo positivo do emprego formal e renovam a força de trabalho no estado. O impasse está menos na disposição para trabalhar e mais nas condições oferecidas a quem começa – salários menores, exigências crescentes e trajetórias profissionais pouco claras em um mercado cada vez mais competitivo.
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