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De empacotador ao Grammy, Bad Bunny faz da música um território latino de disputa e conquista

Rumo ao Super Bowl, ele se torna o primeiro latino solo a comandar o intervalo e leva a cultura porto-riquenha ao maior palco da TV mundial

Por Eduardo Scofi Publicado em 03/02/2026 às 10:27

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Por muito tempo, a música em espanhol foi empurrada para categorias paralelas da indústria global. Em 2026, essa lógica começa a ruir quando um artista latino ocupa o centro do palco sem abrir mão da própria língua.

Após vencer o Grammy de Álbum do Ano, Bad Bunny agora caminha para outro momento histórico: será o primeiro artista latino solo a assumir o show do intervalo do Super Bowl. Dois marcos que dizem muito mais do que números ou recordes. Falam de raízes, pertencimento e sobrevivência cultural.

Quem é Bad Bunny?

Benito Antonio Martínez Ocasio nasceu em Vega Baja, Porto Rico, longe do glamour da indústria musical. Antes de ser o rosto mais reconhecível da música pop global, era estudante de comunicação audiovisual e empacotador de supermercado.

Reprodução
Benito Martínez ainda criança, em Porto Rico - Reprodução

Foi pela internet, publicando faixas no SoundCloud, que sua voz começou a atravessar fronteiras. Não demorou para que aquele timbre grave, melancólico e combativo transformasse o trap latino e reposicionasse o reggaeton como linguagem política e estética de alcance mundial.

Dominando os charts, redefiniu o conceito de estrela pop e recusou o papel de “artista de nicho latino”. O ponto de virada simbólico veio agora, com Debí Tirar Más Fotos vencendo o prêmio máximo da indústria fonográfica. Pela primeira vez, um álbum totalmente em espanhol foi reconhecido como Álbum do Ano pelo Grammy.

ICE e os imigrantes dos Estados Unidos

Esse reconhecimento acontece em um momento de tensão aberta nos Estados Unidos. O endurecimento das políticas migratórias, a atuação violenta do ICE e a retórica anti-imigrante recolocaram milhões de latinos em estado de alerta.

Desde o início da carreira, sua obra carrega uma defesa explícita de Porto Rico, denunciando abandono estatal, colonialismo econômico e gentrificação. Nos últimos anos, o discurso se ampliou. No palco do Grammy e em suas falas recentes, ele foi direto ao ponto ao afirmar que "não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos."

ADAM GRAY/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Pessoas protestam contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) no centro de Minneapolis, em Minnesota, em 25 de janeiro - ADAM GRAY/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Há coerência entre discurso e prática. Benito chegou a evitar apresentações em cidades dos Estados Unidos por receio de que seus shows se tornassem alvos de ações contra imigrantes. Ao ser questionado pela revista Variety sobre a decisão, foi direto: “É desnecessário”. Segundo ele, o público americano já teve inúmeras oportunidades de vê-lo ao vivo nos últimos anos.

Nos bastidores, porém, a leitura é mais ampla. Para muitos, a escolha também funciona como estratégia de proteção, ao evitar grandes concentrações de pessoas latinas em um mesmo espaço, frequentemente vistas como alvos fáceis de abordagens do ICE. Sua música, mesmo quando dançante, nunca foi apenas festa, é denúncia embalada em beat, catarse coletiva e sotaque caribenho.

Música e sonoridade

Musicalmente, a base de Bad Bunny está no reggaeton e no latin trap, campos onde ele reina com naturalidade, mas sua sonoridade flerta com rock, punk, soul, pop alternativo e ritmos tradicionais latinos. Seus shows têm a energia de um concerto de rock e o balanço de uma pista de dança. É música urbana no sentido mais amplo da palavra. Urbana porque nasce da cidade, do conflito e da mistura.

Eric Rojas/Divulgação
Bad Bunny, durante apresentação lotada, carrega posicionamento político e defesa das comunidades latinas - Eric Rojas/Divulgação

No próximo domingo, 8 de fevereiro de 2026, Bad Bunny sobe ao palco do Super Bowl LX, em Santa Clara, Califórnia. Será o primeiro latino solo a comandar o maior espetáculo da televisão mundial. A promessa é de um show majoritariamente em espanhol, levando Porto Rico para milhões de telas em um país que ainda insiste em tratar o espanhol como língua estrangeira.

Bad Bunny no Brasil

Poucos dias depois, ele aterrissa no Brasil com a Debí Tirar Más Fotos World Tour. Em São Paulo, faz história mais uma vez ao lotar o Allianz Parque em duas noites consecutivas, nos dias 20 e 21 de fevereiro de 2026. É o primeiro artista latino a alcançar esse feito em estádios brasileiros nessa escala.

Do Grammy ao Super Bowl, Bad Bunny não está apenas colecionando troféus, está abrindo caminho. Em tempos de muros, batidas migratórias e apagamento simbólico, sua presença no topo é um gesto político. Um lembrete alto, dançante e impossível de ignorar de que a cultura latina não pede licença, ela ocupa.

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