Vacinar grávidas e prematuros é a melhor ferramenta contra o vírus causador da bronquiolite e pneumonia em bebês

Vírus sincicial respiratório (VSR) é a principal causa de infecções respiratórias graves em bebês e crianças de até dois anos. Prevenção é fundamental

Por Ana Maria Miranda Publicado em 21/03/2026 às 18:29

Clique aqui e escute a matéria

SÃO PAULO* - Apesar de não ser tão conhecido pela população em geral, o vírus sincicial respiratório (VSR) é a principal causa de infecções respiratórias graves em bebês e crianças de até dois anos, como bronquiolite e pneumonia. Na maioria dos bebês, os sintomas da infecção pelo VSR incluem coriza, espirros e congestão nasal, os mesmos de um resfriado comum. No entanto, alguns casos podem se agravar, levando à hospitalização da criança e se tornando um verdadeiro filme de terror para os pais e responsáveis.

Dados do OpenDataSUS apontam que o número de internações por VSR em bebês de até um ano de idade em 2025 superou o registrado nos três anos anteriores. Entre fevereiro e junho de 2025, o Brasil registrou 36% mais hospitalizações por VSR em bebês de até um ano em comparação com o mesmo período de 2024. Em maio do ano passado, 31% dos bebês hospitalizados precisaram da UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Por ser altamente contagioso, o VSR é transmitido facilmente entre outras crianças. Bebês que têm irmãos mais velhos que frequentam creches, por exemplo, têm alto risco de contrair o vírus.

"As crianças têm um risco, principalmente nos primeiros seis meses de vida, de ter uma infecção no pulmão e especialmente nos bronquíolos, que é uma área mais terminal do pulmão. Essa inflamação que causa uma bronquiolite pode levar essa criança a ter, além de coriza, de febre, ela pode ficar cansadinha e às vezes muito cansadinha, a ponto de ter que ir para o hospital, e às vezes ter inclusive que ser intubada, porque essa criança não vai conseguir respirar sozinha. Então, é um vírus que oferece um risco de morte", explica a médica infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, durante roda de conversa sobre o VSR promovida pela Sanofi na última semana.

Segundo dados do BMC Health apresentados pela infectologista, no ano passado, o custo médio da internação de uma criança por bronquiolite foi de cerca de R$ 29 mil. Além do impacto dos recursos públicos, a alta taxa de internações lota os hospitais infantis como um todo, inviabilizando o atendimento ou cirurgias de crianças por causa da falta de leitos.

Júnior Rosa/Divulgação
Médica infectologista Rosana Richtmann - Júnior Rosa/Divulgação

Estratégia de imunização tem se mostrado eficiente

A boa notícia é que, mesmo diante de um cenário preocupante, a estratégia adotada pelo Ministério da Saúde é considerada por especialistas como uma saída para enfrentar casos graves do VSR. No Brasil, as gestantes recebem a vacina VSR A e B (recombinante), a partir da 28ª semana de gestação, pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Já os bebês prematuros e as crianças de até 24 meses que tenham alguma comorbidade recebem o anticorpo monoclonal Beyfortus (nirsevimabe), que imuniza a criança contra o VSR com efeito rápido. O bebê recebe o anticorpo em dose única por temporada, também pelo SUS, e a proteção é imediata.

O infectologista pediátrico Renato Kfouri pontua que a estratégia adotada pelo Brasil faz com que nenhuma criança fique fora de alguma estratégia de prevenção contra o VSR. "Todas elas poderão receber a prevenção através da vacina da mãe ou através desse anticorpo, se o bebê nasce antes do tempo. É um grande investimento que o Brasil está fazendo no Programa Nacional de Imunizações, que agora precisa ser transformado em realidade. A gente precisa fazer com que, de fato, essas crianças fiquem protegidas", destaca.

O risco de gravidade da infecção do VSR existe para todos os bebês: mais de 70% dos bebês hospitalizados por VSR nasceram saudáveis e a termo; duas em cada três crianças são infectadas pelo VSR durante o primeiro ano de vida; e quase todas as crianças têm contato com o vírus até os dois anos de idade. Portanto, arriscar não é uma possibilidade.

Proteção para a mãe e o bebê

Conforme mencionado, as gestantes devem se vacinar contra o VSR a partir da 28ª semana de gestação, sem restrição de idade para a mãe. A vacina VSR A e B (recombinante) é aplicada em dose única e possibilita a transferência de anticorpos da mãe para o bebê, oferecendo proteção nos primeiros meses de vida.

Já o nirsevimabe é fundamental para aplicação nos bebês prematuros - aqueles com idade gestacional inferior a 37 semanas; isto porque, mesmo se a mãe tiver sido vacinada, há risco da proteção não ter chegado ao bebê, já que ele nasceu antes do tempo. Os prematuros representam cerca de 12% dos bebês nascidos no País.

As crianças com até 24 meses de idade que tiverem alguma comorbidade também precisam ser imunizadas com o nirsevimabe. Confira a lista abaixo:

  • Doença pulmonar crônica da prematuridade (broncodisplasia)
  • Cardiopatia congênita
  • Anomalias congênitas das vias aéreas
  • Doença neuromuscular
  • Fibrose cística
  • Imunocomprometimento grave, de origem inata ou adquirida
  • Síndrome de Down

Outros recém-nascidos também podem ser imunizados ainda na maternidade ou durante a internação neonatal, desde que estejam clinicamente estáveis e não apresentem contraindicações à aplicação intramuscular. Ou seja, não há contraindicações para bebês nascidos a termo (no tempo certo), e eles também podem receber o anticorpo mesmo que a mãe tenha sido vacinada contra o VSR.

A família dos bebês que não receberam a proteção ao nascer deve procurar a Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais (RIE) durante a sazonalidade do vírus (entre fevereiro e agosto).

Bebês prematuros e com comorbidades podem receber o Beyfortus desde fevereiro de 2026 pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No sistema privado, crianças nascidas a termo podem se imunizar, antes ou durante a sazonalidade do VSR. A cobertura é garantida pelos planos de saúde, seguindo os mesmos critérios de eligibilidade adotados pelo SUS.

Divulgação/SES-PE
Anticorpo monoclonal nirsevimabe protege contra o VSR, que causa a bronquiolite - Divulgação/SES-PE

Dificuldades regionais

Uma das dificuldades com relação à imunização contra o VSR é o fato de que a sazonalidade do vírus é diferente a depender da região. No Norte e Nordeste, por exemplo, é entre março e agosto. Já no Sul, a transmissão fica alta até julho, com 35% mais casos que em 2024. No Sudeste, foi registrado 62% de aumento com relação a 2024 e no Centro-Oeste, 58% a mais.

Para a infectologista Rosana Richtmann, regiões que não têm a sazonalidade do vírus tão marcada, como o Norte e Nordeste, dificulta a realização de diagnósticos. Além disso, no Nordeste do país, o VSR costuma acompanhar o vírus Influenza (gripe).

"A percepção dos pais de que, de fato, existe o vírus sincicial circulando é menor e talvez até dos próprios profissionais da saúde. É muito importante que nessas regiões a gente fale sobre isso e, principalmente, faça mais diagnóstico. A criança está com o quadro clínico, deve ser bronquiolite? Vamos tentar de fato fazer o diagnóstico, mostrar que é o vírus sincicial, e quanto mais diagnóstico a gente fizer, mais a gente convence e demonstra pra população a importância da prevenção. Comunicação é fundamental", afirma.

A especialista ressalta ainda que a proteção contra o VSR nos primeiros anos de vida também protege a saúde da criança a longo prazo. "Hoje, nós temos como evitar uma infecção tão importante que pode ter problema a curto, a médio e longo prazo. Nós estamos falando de sibilância recorrente, estamos falando de asma no futuro. Então, qual é o papel hoje do estado, do governo? Primeiro, campanhas informando sobre isso. Segundo, oferecer o acesso fácil. Alguém que está lá no interior do estado de Pernambuco, não pode ser um problema ir atrás desse imunizante, e sim uma oportunidade de fazer a proteção do seu filho. É fundamental que o estado forneça o acesso, em especial a esses prematuros", reforça.

O infectologista pediátrico Renato Kfouri reforça ainda a importância da busca ativa pelos prematuros. "Nós temos hoje no Ministério da Saúde a RIE, a Rede de Imunobiológicos Especiais, que organiza cada estado e cada município para que nenhuma criança fique para trás. É fundamental que baseado nos dados de nascimento, no SINASC (Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos), que deve especificar quem nasce de forma prematura para que nós consigamos de uma forma ativa fazer uma busca desses prematuros que nasceram e não deixar ninguém sem a proteção ideal", explica.

Júnior Rosa/Divulgação
Infectologista pediátrico Renato Kfouri - Júnior Rosa/Divulgação

Após o nirsevimabe, Chile zerou internações de bebês pelo VSR

Mais de 11 milhões de bebês foram imunizados com o nirsevimabe em mais de 45 países, e os resultados são satisfatórios. No Chile, por exemplo, houve redução de 76% nas hospitalizações por VSR, e de 85% nas internações em UTI pediátrica.

Além disso, durante o primeiro e segundo anos de implementação (2024 e 2025), não foi registrada nenhuma morte entre bebês menores de um ano. A região de Galícia, na Espanha, apresentou redução de 82% nas hospitalizações por VST na primeira temporada, tanto em atendimentos de emergência como de UTI.

*A jornalista participou do evento a convite da Sanofi

Compartilhe

Tags