Estudo define melhores medicamentos para insuficiência cardíaca por Chagas

Pesquisa internacional com participação da Unesp avalia eficácia de terapias em 922 pacientes e deve nortear novas diretrizes de tratamento globais

Por Maria Clara Trajano Publicado em 18/02/2026 às 14:08

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Pesquisadores brasileiros e estrangeiros concluíram o primeiro grande ensaio clínico voltado exclusivamente para pacientes com insuficiência cardíaca causada pela doença de Chagas.

O estudo PARACHUTE-HF, que contou com a participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), comparou a eficácia de dois medicamentos amplamente utilizados para o coração e identificou evidências que podem reduzir a mortalidade e o índice de hospitalizações nesta população.

A doença de Chagas atinge mais de 7 milhões de pessoas no mundo, a maioria na América Latina, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Recentemente, o tema ganhou urgência no Brasil após a cidade de Ananindeua, no Pará, registrar um surto com 14 casos confirmados, 40 casos suspeitos e quatro mortes, possivelmente associadas ao manejo inadequado do açaí.

Insuficiência cardíaca em pacientes chagásicos

A insuficiência cardíaca é a complicação mais grave e a principal causa de morte entre os infectados pelo protozoário Trypanosoma cruzi. No entanto, o tratamento desses pacientes costuma ser baseado em diretrizes desenhadas para outras cardiopatias (causadas por hipertensão ou diabetes), ignorando as particularidades da doença.

Diferente do perfil padrão de pacientes cardíacos, o paciente chagásico muitas vezes não apresenta comorbidades tradicionais, mas sofre com uma degradação severa da qualidade de vida.

Essa lacuna de informação deixava médicos sem evidências robustas sobre qual medicamento seria mais seguro e eficaz para este grupo específico.

A médica cardiologista Silméia Garcia Zanati Bazan, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB/Unesp) e uma das investigadoras do estudo, explica a importância da iniciativa:

“O tratamento padrão para insuficiência cardíaca inclui o Sacubitril/Valsartana e o Enalapril, de uso recorrente e eficazes para outras etiologias de insuficiência cardíaca. Mas esses medicamentos ainda não haviam sido testados especificamente em pacientes com Doença de Chagas de forma robusta”.

Resultados e eficácia comparada

O ensaio clínico randomizado foi realizado em 83 centros de pesquisa de quatro países (Brasil, Argentina, Colômbia e México). Durante 12 semanas, 922 pacientes foram divididos em dois grupos: um recebeu Sacubitril/Valsartana e o outro, Enalapril.

Para medir o sucesso do tratamento, os cientistas monitoraram o biomarcador NT-proBNP, uma substância liberada pelo organismo quando o coração está sob estresse e não consegue bombear sangue adequadamente.

Ambos os medicamentos se mostraram seguros para os pacientes. O grupo tratado com Sacubitril/Valsartana apresentou uma redução significativamente maior nos níveis do biomarcador. A queda deste índice sugere uma tendência direta de redução em mortes cardiovasculares e internações.

“Pela primeira vez, foi possível trazer evidências robustas sobre a eficácia de uma classe moderna de medicamentos em uma população negligenciada”, afirma Silméia Bazan.

Impacto na saúde pública e migração global

Embora seja classificada como uma doença tropical negligenciada, o impacto do Chagas deixou de ser estritamente regional.

Devido aos fluxos migratórios, estima-se que cerca de 400 mil pessoas infectadas vivam hoje em áreas não endêmicas, como Estados Unidos, Europa e Ásia, onde a transmissão pode ocorrer via transfusão de sangue ou da mãe para o filho durante a gravidez.

Os dados publicados no Journal of the American Medical Association (JAMA) devem servir de base para a atualização de protocolos clínicos no Brasil e no exterior.

“Os resultados podem orientar futuras diretrizes terapêuticas, fortalecer políticas públicas de saúde e originar novos ensaios clínicos multicêntricos de alta qualidade em doenças raras ou negligenciadas e em países em desenvolvimento”, celebra Silméia.

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