Obesidade no Brasil: quando os números gritam e a sociedade ainda silencia
Seguimos tratando a obesidade como falha individual quando, na verdade, estamos diante de uma condição crônica, complexa e multifatorial
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*Uyara Lima é nutricionista, especialista em obesidade, emagrecimento e cirurgia bariátrica
Os dados sobre obesidade divulgados recentemente pelo Ministério da Saúde são claros e, ao mesmo tempo, desconfortáveis. O índice da doença no Brasil mais que dobrou em menos de duas décadas. Hoje, mais de 60% dos adultos vivem com excesso de peso, e cerca de um quarto da população já se enquadra em obesidade.
A mais atual edição do Vigitel Brasil, divulgada pelo Ministério da Saúde, mostra que, entre 2006 e 2024, o número de adultos com diabetes no País aumentou 135%. No mesmo período, a obesidade cresceu 118%, a hipertensão 31% e o excesso de peso 47%.
Mas o problema não está apenas nos números. O problema está no que escolhemos fazer ou não fazer diante deles.
Seguimos tratando a obesidade como falha individual quando, na verdade, estamos diante de uma condição crônica, complexa e multifatorial, profundamente influenciada pelo ambiente em que vivemos. Um ambiente que estimula o sedentarismo, facilita o consumo de ultraprocessados, romantiza soluções rápidas e dificulta o acesso ao cuidado contínuo e qualificado.
É incoerente exigir escolhas saudáveis em uma rotina que adoece.
Diante desse avanço expressivo das doenças crônicas, o governo federal lançou agora, em 2026, a estratégia Viva Mais Brasil, uma mobilização nacional voltada à promoção da saúde, ao estímulo à atividade física, à alimentação saudável e ao fortalecimento da atenção primária.
A iniciativa prevê investimentos importantes em políticas públicas, ampliação de espaços para prática orientada de exercícios e reforço no acompanhamento de condições como diabetes e hipertensão.
O reconhecimento institucional do problema é um passo relevante. Mas ele também escancara uma verdade que ainda evitamos: políticas públicas são fundamentais, porém não substituem o cuidado contínuo, individualizado e especializado. A obesidade não se resolve com campanhas, orientações genéricas ou ações pontuais.
A cada novo relatório, cresce também o número de diagnósticos de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Ainda assim, insistimos em olhar apenas para o peso, e não para o tempo de exposição ao excesso de peso sem tratamento adequado, que é um dos maiores determinantes de risco.
Obesidade não se resolve com força de vontade isolada
Outro ponto que precisa ser dito com clareza. Normalizar o ganho de peso como algo inevitável com a idade é perigoso. Culpabilizar o indivíduo é ineficaz.
Nenhuma dessas abordagens resolve o problema. Pelo contrário, atrasam o início do tratamento e afastam as pessoas do cuidado.
A obesidade não se resolve com força de vontade isolada, dietas restritivas ou promessas milagrosas. Ela exige estratégia, acompanhamento, educação alimentar, mudança de comportamento e, muitas vezes, tratamento multidisciplinar.
Tratamento nutricional
O acompanhamento nutricional vai muito além de prescrever um plano alimentar. Ele envolve avaliação clínica, ajuste individualizado da alimentação, construção de uma rotina possível e sustentável, prevenção de deficiências nutricionais e suporte contínuo para a mudança de comportamento alimentar.
Sem isso, qualquer intervenção tende a falhar no médio e longo prazo.
Cirurgia bariátrica: tratamento, não atalho
A cirurgia bariátrica é uma ferramenta terapêutica eficaz quando bem indicada, especialmente em pessoas com obesidade e doenças associadas.
Ela não é solução isolada. Exige preparo, acompanhamento antes e depois, evolução alimentar adequada e monitoramento contínuo.
Quando bem indicada e acompanhada, reduz riscos, melhora doenças associadas e salva vidas. Ignorar essa opção por preconceito é fechar os olhos para evidências científicas sólidas.
Análogos de GLP-1: avanço, não milagre
Os medicamentos análogos de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras (semaglutida e tirzepatida) representam um avanço importante no tratamento da obesidade. Atuam na saciedade, no controle glicêmico e no comportamento alimentar.
É preciso dizer com clareza. Eles não substituem mudança de estilo de vida, não funcionam sem acompanhamento, não são isentos de riscos ou efeitos colaterais e não resolvem a causa sozinhos.
Usados com critério e acompanhamento profissional, podem ser aliados valiosos. Usados como solução mágica, tendem a gerar frustração, abandono e efeito rebote.
O ponto central que ainda evitamos
Não existe tratamento único. Existe tratamento adequado para cada pessoa, em cada fase da doença.
O verdadeiro problema não é optar por bariátrica, medicamento ou acompanhamento nutricional. O problema é não tratar.
Enquanto a obesidade continuar sendo vista como falta de esforço, e não como uma condição de saúde, continuaremos tratando consequências, e não causas. E seguiremos pagando essa conta com adoecimento precoce, perda de qualidade de vida e sobrecarga do sistema de saúde.
Falar sobre obesidade é falar sobre saúde pública. Ignorar esse alerta é escolher adoecer em silêncio.