Volta às aulas pode intensificar sintomas de TDAH em crianças
Retomada da rotina escolar exige atenção de famílias e educadores para evitar prejuízos no aprendizado e no comportamento
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Com o retorno às aulas, crianças e adolescentes com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) podem apresentar uma intensificação de sintomas como desatenção, impulsividade e dificuldade de organização.
A retomada da rotina escolar, com horários fixos, regras mais estruturadas e maior exigência cognitiva, costuma evidenciar dificuldades que ficaram menos perceptíveis durante o período de férias.
Estimativas do Ministério da Saúde indicam que o TDAH afeta cerca de 7,6% das crianças e adolescentes no Brasil, o que reforça a importância de acompanhamento adequado no início do ano letivo.
Início do ano letivo é momento estratégico para ajustes
Para o diretor da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, Rubens Wajnsztejn, a volta às aulas deve ser encarada como um período estratégico para avaliação do tratamento e possíveis ajustes.
“O início do ano letivo é um momento importante para observar como os sintomas se manifestam no ambiente escolar e, se necessário, ajustar o manejo terapêutico junto ao médico responsável”, explica.
Segundo o especialista, a manutenção do tratamento contínuo pode favorecer uma adaptação mais equilibrada à rotina, evitando retrocessos no desenvolvimento acadêmico e social da criança.
Sinais de alerta podem surgir ainda na infância
O manejo clínico do TDAH passa pelo reconhecimento precoce dos sinais, que geralmente aparecem ainda na infância. Agitação acima do esperado para a idade, dificuldade para dormir, choro frequente e baixa tolerância à frustração, quando persistentes, podem indicar a necessidade de avaliação especializada.
Entre os comportamentos mais associados ao transtorno, estão:
- Dificuldade em prestar atenção a detalhes e erros por descuido em atividades escolares;
- Problemas para manter a atenção em tarefas ou brincadeiras;
- Aparente desatenção quando alguém fala diretamente;
- Dificuldade para seguir instruções e concluir tarefas;
- Desorganização frequente;
- Evitar atividades que exigem esforço mental prolongado;
- Distração com estímulos externos;
- Esquecimento de compromissos e objetos;
- Inquietude, fala excessiva e dificuldade de esperar a própria vez.
Projeto leva orientação sobre TDAH às escolas
A dificuldade de adaptação à rotina escolar também evidencia a necessidade de ações educativas. Criado em 2024, o projeto TDAH Levado a Sério na Escola já alcançou mais de 1.000 educadores de 220 escolas públicas e privadas em diferentes regiões do País.
A iniciativa é fruto de uma parceria entre a indústria farmacêutica Apsen e a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), com foco na capacitação de professores para identificar precocemente sinais do transtorno em sala de aula e promover um ambiente mais inclusivo.
Novas etapas estão previstas para 2026, incluindo o lançamento de uma trilha de conhecimento digital, que permitirá ampliar o acesso à formação de educadores em todo o Brasil.
Diagnóstico e tratamento exigem avaliação especializada
Em 2025, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) oficializou oito opções medicamentosas para o tratamento do TDAH no País, incluindo estimulantes, antidepressivos e a atomoxetina, primeira terapia não estimulante disponível no Brasil desde o fim de 2023.
De natureza neurobiológica e com forte componente genético, o TDAH pode persistir até a vida adulta e comprometer diferentes áreas da vida do indivíduo. Em crianças, o diagnóstico deve ser feito por meio de avaliação clínica detalhada, conduzida por médico especializado.
Ferramentas como a escala SNAP-IV auxiliam no rastreio dos sintomas, mas não substituem a análise clínica, já que sinais semelhantes podem estar associados a outras condições de saúde.