Arte, saúde mental e cuidado coletivo no Carnaval do Recife

Em oficinas de arteterapia no Recife, cidadãos ajudam a construir o Galo da Madrugada e transformam arte em cuidado, pertencimento e saúde mental

Por Maria Clara Trajano e Aisha Vitória Publicado em 23/01/2026 às 17:37

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Antes mesmo de ganhar as ruas, o Galo da Madrugada já pulsa. Não apenas em cores, brilhos e formas, mas em gestos silenciosos, mãos que recortam e pintam, histórias atravessadas por dificuldades e pela reinvenção.

No Centro de Convivência (Cecon) Recomeço Fátima Caio, da prefeitura do Recife, a alegoria gigante do Carnaval nasce também como exercício de cuidado: usuários do Cecon, ou melhor, convivas transformam arte em instrumento de promoção da saúde mental.

Em 2026, o Galo traz como mensagem central a saúde mental. A escolha não é aleatória. Em um País onde o sofrimento psíquico atinge 86% da população, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), iniciativas que integram cultura e cuidado ganham força como políticas de saúde pública.

A roupa do Galo será revestida com mosaicos de plástico produzidos em oficinas de arteterapia por cerca de 200 beneficiários das políticas públicas da prefeitura do Recife.

O trabalho é conduzido pelo multiartista Leopoldo Nóbrega, com supervisão da Traços – Estudos em Arteterapia, entidade que atua há mais de 20 anos na área da saúde mental.

A alegoria também homenageia a psiquiatra Nise da Silveira e o artista Gonzaga Leal, referências que transformaram a história da saúde mental no Brasil ao defender práticas mais humanas e sensíveis.

Arte como clínica ampliada

O Cecon Recomeço Fátima Caio é um dispositivo da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS e funciona como espaço de portas abertas. Ali, o cuidado não se limita à ausência de doença, mas à produção de vida.

“Aqui a gente trabalha o cuidado em saúde mental por uma via sensível, através das oficinas terapêuticas e da transmissão de saberes populares”, explica a artista e gestora do centro, Bárbara Buzatti.

Segundo ela, a proposta é usar a arte e a cultura como formas de desestigmatizar o sofrimento psíquico. “É falar de vida, de subjetividade, de permitir que esses corpos existam na cidade da maneira que eles são”.

Atualmente, o espaço oferece cerca de 12 modalidades de oficinas, como cerâmica, música, artesanato, corpo e movimento, agricultura culinária e escrita.

“A clínica através da arte e da cultura é fundamental para diminuir o sofrimento e promover uma reabilitação psicossocial verdadeira”, afirma Bárbara.

Maria Clara Trajano e Aisha Vitória/JC IMAGEM
Arte, saúde mental e cuidado coletivo no Carnaval do Recife - Maria Clara Trajano e Aisha Vitória/JC IMAGEM

O fazer artístico como cuidado em saúde mental

Para o arteterapeuta e professor Alexandre Behar, a potência da arteterapia está justamente no fazer livre, sem julgamento estético. “A gente associa arte à técnica, mas a arteterapia é uma abordagem em saúde mental. É algo muito humano, que acessa o que é pessoal”.

Segundo ele, os efeitos aparecem rapidamente. “O impacto na autoestima é imediato. A pessoa se vê capaz, percebe beleza no que fez e isso se reflete em outros campos da vida”.

Além disso, o trabalho coletivo fortalece vínculos. “Surge um sentimento de coletividade que é muito importante”, afirma.

A psicóloga Larissa de Oliveira, que atende os convivas que frequentam o Cecon Fátima Caio, reforça que a arte atua como ferramenta de regulação emocional e ressignificação de experiências.

“A arte trabalha o subjetivo, mas é algo concreto, palpável. Ela ajuda a trazer a pessoa de volta para o cotidiano, para a realidade", diz.

Ela explica que, no Cecon, o foco não está no diagnóstico: “a gente entende a pessoa, não o rótulo. O diagnóstico não fala das potências; quem fala é o sujeito”.

Maria Clara Trajano e Aisha Vitória/JC IMAGEM
Arteterapia no Carnaval 2026 - Maria Clara Trajano e Aisha Vitória/JC IMAGEM

Conviver, criar, pertencer

Entre tintas, recortes e conversas, os convivas constroem mais do que painéis que irão vestir o Galo. Constroem pertencimento.

Leandro Menelau participa de várias atividades do centro, como teatro, culinária e agricultura. Para ele, a arte é afeto: “tudo que você faz com amor, você cresce. No teatro, na pintura, você coloca o sentimento”.

Saber que seu trabalho fará parte do Galo tem um significado especial. “Vai ficar um pedacinho do meu coração para a história”, afirma.

Já Priscila da Silva Cardoso se emociona ao falar do caminho percorrido.

“Quando eu cheguei aqui, eu não falava com ninguém, usava muitas drogas e morava na rua. Hoje estou em casa, com meus filhos”, conta.

Para ela, participar do projeto do Galo é motivo de orgulho, mesmo sem ir ao desfile.

“Eu tenho medo de muita gente, mas sabendo que tem um pedacinho meu lá, já é muito gratificante”.

A integração entre cultura e saúde mental está alinhada às diretrizes do Ministério da Saúde, que reconhece a importância de estratégias comunitárias e não medicalizantes no cuidado em saúde mental. A OMS também destaca atividades artísticas como ferramentas eficazes para promoção do bem-estar emocional.

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