Muito antes do Recifolia, Boa Viagem viveu um modelo inovador de Carnaval no Recife
Há 50 anos, num tempo em que as apresentações em palcos eram restritas dos clubes, a Banda de Pau e Corda levou os 'bailes populares' para as ruas
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Quando se fala em "Carnaval em Boa Viagem", muita gente hoje associa imediatamente ao Recifolia, festa fora de época marcada pela predominância da música baiana nos anos 1990.
Contudo, há exatos 50 anos, o bairro vivenciou um novo modelo de Carnaval no Recife ao propor shows com bandas e cantores em palcos montados na rua, então chamados de "bailes populares".
Até a primeira metade dos anos 1970, o Carnaval de rua do Recife era formado basicamente por troças acompanhadas por orquestras e desfiles de agremiações. Já o Carnaval com shows em palco ficava restrito aos clubes sociais, frequentados majoritariamente pelas classes médias.
Quem inaugurou esse modelo no espaço público foi a Banda de Pau e Corda, que por muitos anos se tornou a principal atração do Carnaval de Boa Viagem. Foi ali que Alceu Valença realizou seus primeiros shows carnavalescos na capital, assim como Marron Brasileiro e Nádia Maia, integrando a Banda Alcano.
Nesse mesmo contexto, o jovem maestro Spok subiu pela primeira vez a um palco de Carnaval, participando de um show da Pau e Corda.
Folia na Zona Sul
Boa Viagem já contava com desfiles de agremiações conhecidas, como o Clube do Limão e o Birinaite Classe A. Mas foi em 1976 que a festa viveu uma experiência inédita, com shows da Pau e Corda durante os quatro dias de Carnaval.
Sérgio Andrade, vocalista da banda, relembra que tentou tocar em diversos carnavais de clubes, mas ouvia dos organizadores que o grupo "não tinha sopro e não era banda de Carnaval" — apesar de já ter gravado frevos em seu primeiro disco, lançado em 1973.
Diante disso, a banda decidiu criar uma alternativa própria e conseguiu o patrocínio de Chiquinho Araújo, dono das Casas José Araújo. "Ele gostou da ideia, mas queria que fosse em Boa Viagem, porque lá existia um Carnaval de rua bonito”, recorda Andrade.
A estrutura do palco foi cedida pela Empetur e montada em frente ao Edifício Acaiaca, na Avenida Boa Viagem. Na cobertura do Carnaval daquele ano, em março, o Jornal do Commércio noticiou que, além da Pau e Corda, houve apresentações da orquestra do maestro Duda e concursos de fantasia.
No repertório, o frevo "Piuí", composição de Bubusca Valença, era presença constante. "A gente tocava e as pessoas formavam um trenzinho enorme. Já na segunda edição, o público passou a pedir esse frevo. Resolvemos agora gravá-lo em estúdio e lançá-lo como parte da comemoração dos 50 anos do Carnaval de Boa Viagem", conta Andrade.
Crescimento
Inicialmente, o apoio do poder público ao Carnaval em Boa Viagem dividiu opiniões. Registros da imprensa apontam que o próprio presidente da Empetur à época via obstáculos, sobretudo pela falta de verba para a descentralização da festa.
Além disso, agremiações reclamavam das dificuldades de transporte para os desfiles (um problema que já existia no Centro da cidade), somado à percepção de que os moradores do bairro preferiam o Carnaval dos clubes.
Em 1980, no entanto, já se registrava a presença de cerca de 20 mil foliões por dia nesse novo modelo de festa, promovendo uma mistura entre a elite e o povão.
"A cada ano, o público aumentava. A partir da década de 1980, outras empresas passaram a se envolver. Contratamos a empresa que havia feito o palco do comício das Diretas Já, em 1985, com uma estrutura realmente mais elaborada. O Carnaval, enfim, foi ganhando volume", afirma Sérgio Andrade.
Com a entrada de uma marca de cerveja como patrocinadora, novas bandas passaram a integrar a programação, entre elas Alceu Valença e a Banda Alcano.
Novos palcos também foram montados em pontos como o Othon Palace Recife e o Jangadeiro. Surgiram ainda os trios elétricos, como o Asas da América, de Marcos e Marcelo Valença, e o Clube do Pinguim, onde despontou o cantor Almir Rouche.
Diante do crescimento do público e da quantidade de atrações, a Prefeitura do Recife assumiu a produção do evento em 1991. Até então, cada grupo buscava seu próprio patrocínio, enquanto o poder público oferecia apoio logístico.
Ao longo daquela década, os trios elétricos passaram a predominar sobre os palcos, além da inclusão crescente da música baiana — com o axé em seu auge — nos repertórios, o que gerou comparações com o Carnaval de Salvador.
A principal controvérsia, porém, estava na dimensão que a festa alcançou, passando a incomodar parte das classes médias residentes no bairro.
Carnaval Multicultural
Com a chegada de João Paulo (PT) à Prefeitura do Recife, em 2001, o Carnaval de Boa Viagem foi encerrado.
Adotou-se um modelo com palcos distribuídos por diferentes pontos da cidade, incluindo os subúrbios, tendo como foco principal o Bairro do Recife. Surgia o chamado "Carnaval Multicultural", que reunia artistas de diversas vertentes musicais.
Para se ter uma ideia, até então, nomes como Elba Ramalho e Lenine — homenageados em edições recentes — nunca haviam se apresentado no Carnaval da cidade.
Sérgio Andrade avalia que a gestão petista "pegou o modelo de Boa Viagem e descentralizou". Ainda assim, a influência daquele Carnaval nunca foi oficialmente reconhecida pelos idealizadores do Carnaval Multicultural, como observa o pesquisador e produtor cultural Rafael Moura.
"Se você observar o modelo de festa criado em 1976, ao levar o salão dos clubes sociais para o espaço público e promover um baile gratuito para a população, é possível perceber uma continuidade. Conscientemente ou não, a geração que criou o Carnaval Multicultural, em 2002, foi impactada pelo Carnaval de Boa Viagem no formato criado em 1976", analisa Moura.
Para Sérgio Andrade, hoje há pouca informação do poder público sobre esse período. "Sinto falta dessa história sendo contada no Paço do Frevo, por exemplo, que é um instrumento oficial de divulgação do Carnaval da cidade. Essa história poderia estar lá. Sinto falta disso", conclui.