Apostas on-line: o vício de bolso que pressiona o SUS e vira problema de saúde pública no Brasil
Com atendimentos crescendo 104% em 7 anos, SUS sente efeitos da aposta digital, que corrói renda, vínculos e saúde mental de milhares de brasileiros
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Em um país onde o "bet" deixou de ser apenas um anúncio insistente no intervalo do futebol para se tornar um gatilho de sofrimento psíquico, o lançamento do 'Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas', pelo Ministério da Saúde, na última quinta-feira (15), marca um reconhecimento oficial de que as apostas on-line escaparam da esfera do entretenimento e se consolidaram como um sério problema de saúde pública no Brasil.
Os números ajudam a dimensionar a gravidade. Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 10.553 atendimentos relacionados ao jogo patológico e à mania de apostas.
No período, houve um aumento de 104% na procura por esse tipo de cuidado. Do total de atendimentos, 4.316 foram ambulatoriais, incluindo aqueles realizados nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), e 6.237 ocorreram na Atenção Primária à Saúde, porta de entrada do SUS para casos que, muitas vezes, chegam mascarados por queixas difusas como ansiedade e insônia.
Em 2024, os dados revelam um recorte social claro: 57% dos atendimentos foram realizados em homens e 43% em mulheres, com predominância na faixa etária entre 20 e 49 anos, justamente o grupo economicamente ativo. Estamos, assim, falando de um fenômeno que atravessa o cotidiano produtivo do País, ao corroer a renda, os vínculos e a saúde mental.
No guia do Ministério da Saúde, uma paciente do SUS relata como as apostas, iniciadas sem grandes consequências aparentes, evoluíram para perda de controle, dívidas e sofrimento psíquico, impulsionadas pela facilidade de acesso digital.
Ela resume o problema com precisão: o jogo começou como distração, virou compulsão, gerou dívidas e foi sustentado pela facilidade de acesso. "Depois que eu comecei a jogar, eu não tinha dinheiro para comprar uma bala, porque o meu dinheiro era destinado ao jogo."
Do hábito cultural à armadilha digital
Os jogos de azar sempre fizeram parte da cultura brasileira, desde o período colonial. Mesmo após a proibição formal em 1941, seguiram como prática social tolerada.
O que mudou radicalmente nas últimas décadas foi a escala e a forma de acesso. A digitalização do jogo, impulsionada pela legalização das apostas de quota fixa em 2018 e pela regulamentação consolidada em 2023, inaugurou um ambiente de disponibilidade permanente, publicidade agressiva e estímulo contínuo ao engajamento.
Hoje, 25,9% dos brasileiros já apostaram alguma vez na vida. As modalidades mais comuns são as loterias, seguidas pelos sites de apostas on-line e pelo jogo do bicho.
Entre os que apostam, 4,4% já apresentam alto risco de envolvimento problemático - um percentual que, embora pareça pequeno à primeira vista, representa milhares de pessoas com prejuízos significativos à saúde mental, às finanças e às relações familiares.
O marketing da ilusão como determinante de adoecimento
Um dos pontos mais relevantes do guia é nomear o problema como ele é: resultado dos Determinantes Comerciais da Saúde. Ao fazer isso, o Ministério da Saúde desloca o debate do campo moral para o campo político e sanitário.
Não se trata de falha individual ou simples "falta de controle", mas de um modelo de negócio sustentado por publicidade intensa, algoritmos de engajamento contínuo, bônus de entrada e endosso de celebridades.
As apostas digitais funcionam 24 horas por dia, com acesso fácil por dispositivos móveis e baixa percepção de risco. Essa combinação está associada a quadros de ansiedade, depressão, outros comportamentos compulsivos e aumento do risco de suicídio e autolesão.
Grupos socialmente vulneráveis (jovens, idosos, pessoas em situação de rua, populações indígenas e indivíduos com histórico de transtornos mentais ou uso de álcool e outras drogas) são ainda mais suscetíveis aos efeitos negativos do jogo.
O SUS entra em campo
A resposta proposta pelo Ministério da Saúde aposta em uma abordagem que dialoga com a própria lógica do SUS: cuidado no território, em liberdade e sem julgamento moral.
O guia orienta que a Rede de Atenção Psicossocial, da Atenção Primária aos Caps, esteja preparada para acolher essas pessoas como sujeitos de direitos, e não como casos de desvio moral.
O eixo central é a construção do Projeto Terapêutico Singular, que considera não apenas o comportamento de jogo, mas o contexto social, familiar e financeiro do indivíduo.
O documento também articula novas frentes, como a plataforma de autoexclusão centralizada, o Observatório Saúde Brasil de Apostas, desenvolvido em parceria com o Ministério da Fazenda, e a proposta de uma linha de cuidado integrada, com envolvimento da Saúde, Assistência Social e Suporte Jurídico para lidar com o endividamento e a ruptura de vínculos.
A crítica que não pode ser ignorada
Apesar de representar um avanço institucional importante, o guia expõe um desafio de grande escala: o Estado enfrenta uma indústria altamente lucrativa, que já ocupa o espaço digital com eficiência muito superior à capacidade de resposta do poder público.
A projeção do próprio Ministério da Saúde indica que o número de atendimentos seguirá aumentando, o que pressionará a Rede de Atenção Psicossocial e exigirá ampliação real da capacidade de cuidado.
O maior risco agora é que o documento se torne apenas mais um protocolo bem-intencionado. Para produzir efeito concreto, serão necessários investimento, formação das equipes locais e, sobretudo, disposição política para enfrentar interesses comerciais bilionários.
Em muitos casos, a "ansiedade" ou a "insônia" que chega à unidade básica de saúde esconde uma conta bancária zerada e uma mente aprisionada por um aplicativo.
O Ministério da Saúde reconheceu, enfim, que o vício adoece o País. A saúde pública entrou em campo. A partida contra a máquina das apostas, porém, está só no começo.